A guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã completa 180 dias nesta sexta-feira (28/08/2026), segundo o texto-base da reportagem, após os ataques que, em fevereiro, ampliaram a tensão no Oriente Médio. Desde então, o conflito passou a produzir efeitos sobre o comércio marítimo internacional, os preços da energia e a segurança do abastecimento, além de provocar mudanças nas estratégias adotadas por países dependentes das fontes energéticas do Golfo.
Entre os principais pontos de impacto está o Estreito de Ormuz, passagem estratégica para o transporte internacional de petróleo e outros produtos energéticos. Para o pesquisador Issam Menem, doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGEEI/UFRGS), a crise estimulou diferentes respostas, incluindo formação de reservas estratégicas, diversificação de fornecedores, criação de novas rotas logísticas e expansão de fontes nucleares e renováveis.
Na avaliação apresentada pelo especialista, essas iniciativas contribuíram para acelerar mudanças na ordem energética internacional. O impacto é particularmente relevante para economias que dependem do fornecimento energético dos países do Golfo, entre elas China, Coreia do Sul, Índia e Japão.
Estreito de Ormuz muda percepção sobre segurança energética
O conflito também alterou a percepção dos governos sobre os riscos associados à concentração do abastecimento em uma única região ou rota estratégica. Segundo Leandro Dalalíbera Fonseca, mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), a possibilidade de interrupções no Estreito de Ormuz demonstrou os riscos da dependência de uma passagem específica para o comércio de energia.
Para o pesquisador, os efeitos imediatos do choque podem ser temporários, mas a mudança na percepção de risco tende a permanecer. A consequência pode ser a adoção de políticas destinadas a reduzir a exposição a eventuais interrupções no fornecimento.
No campo estratégico, os analistas citados na reportagem avaliam que a China pode obter vantagens relativas enquanto os Estados Unidos ampliam seu envolvimento no Oriente Médio. Fonseca também considera que um Irã mais afastado dos países ocidentais pode aprofundar sua dependência econômica de Pequim.
Conflito aumenta pressão sobre Donald Trump
Os efeitos da guerra também alcançam a política interna dos Estados Unidos. Uma pesquisa Reuters/Ipsos publicada em 24/08/2026 apontou que quatro em cada cinco norte-americanos acreditam que o conflito com o Irã continuará por mais tempo.
O levantamento citado indica ainda que 63% dos entrevistados desaprovam a condução de Donald Trump na questão envolvendo Teerã, enquanto a rejeição ao presidente norte-americano chega a 62%.
Em entrevista à NBC News em junho, Trump comparou a duração do conflito com a Guerra do Vietnã, afirmando que a ofensiva contra o Irã estava em seu terceiro mês naquele momento, enquanto a participação norte-americana no Vietnã se prolongou por décadas.
Analistas comparam conflito a guerras anteriores
Os especialistas ouvidos pela reportagem consideram que a comparação com o Vietnã pode ser feita principalmente sob o aspecto da dificuldade de transformar superioridade militar em resultado político.
Fonseca aponta semelhanças entre o conflito atual e episódios envolvendo os Estados Unidos no Vietnã, Iraque e Afeganistão, sobretudo diante da resistência interna a guerras prolongadas e dos efeitos econômicos sobre a população norte-americana.
Entre esses efeitos está a inflação, que pode ampliar os custos políticos de uma intervenção militar prolongada. Para o pesquisador, também existe uma contradição entre a permanência do conflito e a plataforma eleitoral de Trump, associada ao lema “Make America Great Again” (MAGA) e à promessa de priorizar questões domésticas e reduzir intervenções externas consideradas dispendiosas.
A pesquisadora Luciana Garcia, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Letras Estrangeiras e Tradução da Universidade de São Paulo (USP), menciona a guerra do Afeganistão como referência para analisar conflitos nos quais a intervenção militar não resulta necessariamente em uma solução política duradoura.
Superioridade militar não garante solução política
Para Fonseca, a principal questão estratégica não está apenas na capacidade norte-americana de atingir instalações militares iranianas, mas na definição do que ocorreria depois das operações.
O especialista afirma que superioridade militar não significa necessariamente vitória política. Nesse cenário, a destruição de instalações, sistemas de defesa, bases e infraestrutura pode representar ganhos militares sem necessariamente produzir um acordo ou uma solução política para o conflito.
Outro conceito citado na análise é o de “mission creep”, expressão utilizada nas relações internacionais para descrever a ampliação progressiva dos objetivos de uma operação militar. Segundo Fonseca, uma guerra iniciada com uma finalidade limitada pode incorporar novos objetivos ao longo do tempo, aumentando o risco de prolongamento.
A ausência de uma definição clara sobre os resultados pretendidos, na avaliação apresentada, pode dificultar a sustentação política de uma ofensiva prolongada. Ao mesmo tempo, o Irã demonstraria capacidade de absorver custos econômicos e políticos decorrentes do confronto.
Seis meses de guerra alteram o cenário internacional
Ao completar seis meses, o conflito apresenta efeitos que ultrapassam o campo militar e alcançam energia, comércio internacional, política doméstica norte-americana e relações entre grandes potências.
A reorganização das estratégias de abastecimento indica que países dependentes das rotas energéticas do Oriente Médio passaram a considerar alternativas para reduzir riscos futuros. O Estreito de Ormuz permanece, nesse contexto, como elemento central para a avaliação da segurança energética global.
No campo geopolítico, os analistas citados apontam para o possível fortalecimento da relação econômica entre Irã e China e para custos crescentes para os Estados Unidos decorrentes da permanência no Oriente Médio. A principal questão colocada pela análise é se a capacidade militar empregada por Washington será acompanhada por uma estratégia política capaz de definir os resultados posteriores ao conflito.
*Com informações da Sputnik News.








Deixe um comentário