Exposição “Atlântico Sertão” reúne obras de 80 artistas no Museu de Arte da Bahia em Salvador

A exposição “Atlântico Sertão” reúne trabalhos de cerca de 80 artistas no Museu de Arte da Bahia (MAB), em Salvador, em uma proposta que aborda o sertão brasileiro a partir de diferentes perspectivas artísticas, históricas, culturais e ambientais. A mostra é uma realização do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e apresenta pinturas, esculturas, fotografias, vídeos e instalações.

Idealizada por Marina Maciel, mestra e doutoranda em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), a exposição tem origem em uma pesquisa sobre a arte como instrumento de defesa dos direitos humanos. A curadoria é assinada por Marcelo Campos, curador-chefe do Museu de Arte do Rio (MAR), em parceria com Ariana Nuala, Amanda Rezende, Jean Carlos Azuos, Rita Vênus e Thayná Trindade.

O projeto estabelece uma relação simbólica entre os conceitos de “Atlântico” e “Sertão”, explorando temas como deslocamentos forçados, violência colonial, ancestralidade, circulação de saberes, resistência, memória, ecologia e produção artística. A proposta considera esses territórios não apenas como espaços geográficos, mas também como referências para diferentes experiências históricas e culturais.

Arte, memória e direitos humanos

Segundo Marina Maciel, a exposição parte da compreensão da arte como meio de elaboração crítica e de defesa dos direitos humanos. A pesquisadora afirma que o espaço associado ao sertão é ressignificado a partir das experiências de grupos historicamente minorizados e de suas produções artísticas.

Para a curadora Ariana Nuala, o sertão é apresentado como um território simbólico no qual diferentes experiências históricas se encontram. A exposição também incorpora, segundo os responsáveis pelo projeto, referências ao sertão relacionado à tecnologia, ao couro, à ecologia e à preservação ambiental.

A mostra utiliza como referência o verso “O sertão está em toda parte”, de Guimarães Rosa, publicado em Grande Sertão: Veredas. A partir das pesquisas de Marina Maciel, o projeto reúne trabalhos que abordam diferentes representações do território brasileiro e inclui obras produzidas especialmente para a exposição por Rose Afefé, Biarritzzz, Alê Siqueira, Maré de Matos e Rebeca Miguel.

Artistas do Norte, Nordeste e outras regiões

A seleção reúne artistas de diferentes estados brasileiros, com presença de comunidades afrodescendentes e indígenas. A participação de artistas das regiões Norte e Nordeste ocupa parte relevante da exposição, estabelecendo relações entre produção contemporânea, memória, território e ancestralidade.

Entre os artistas baianos estão Adenor Gondim, Alê Siqueira, Ayrson Heráclito, George Teles, J. Cunha, Juraci Dórea, Leonardo França, Lita Cerqueira, Lucélia Maciel, Marcos da Matta, Márvila Araújo, Nádia Taquary, Rose Afefé, Bysmarke Vaqueiro, Ventura Profana, Yacunã Tuxá, Zé di Cabeça, Zumví Arquivo Afro Fotográfico e Àwọn arákùnrin oníṣẹ́-ọnà mẹ́ta.

Também participam nomes como Aline Motta, Antonio Obá, Dalton Paula, Denilson Baniwa, Gervane de Paula, Gustavo Caboco, Jaime Lauriano, José Rufino, Lidia Lisbôa, Maria Lira Marques, Rosana Paulino, Tunga, Véio, Yhuri Cruz, Ziel Karapotó, entre outros.

A temporada em Salvador integra a itinerância da exposição, que começou em São Paulo e terá continuidade em Brasília. Para o curador Marcelo Campos, a passagem pela capital baiana estabelece relações com a produção artística local, especialmente a partir de referências à tradição sertaneja e à afrodiáspora.

Seis núcleos curatoriais

A exposição está organizada em seis núcleos curatoriais, que apresentam diferentes abordagens sobre o sertão e suas relações com dimensões históricas, espirituais, políticas, sociais e ambientais.

O primeiro núcleo, “Sertão Atlântico”, de Marcelo Campos, parte da relação entre terra e mar para tratar de heranças indígenas, africanas e populares. A proposta estabelece uma conexão entre territórios que, historicamente, foram atravessados por deslocamentos, intercâmbios culturais e processos de transformação.

Em “Cosmologias em Movimento”, sob curadoria de Rita Vênus, as práticas espirituais são apresentadas como formas de organização da vida e de interpretação do mundo. O núcleo aborda diferentes sistemas de conhecimento e experiências relacionadas à espiritualidade e à ancestralidade.

O terceiro eixo, “Ecologias Ancestrais e Futuros da Terra”, com curadoria de Amanda Rezende, apresenta o sertão como espaço de produção de conhecimentos ancestrais e de reflexão sobre a relação entre comunidades, território e meio ambiente.

Comunidade, arquivos e território

O núcleo “Comunidade, Retomada e Sertões Negros”, organizado por Thayná Trindade, concentra-se em modos de vida baseados na partilha, oralidade e memória. A proposta reúne trabalhos que abordam experiências coletivas e processos de construção e preservação de identidades.

Em “Arquivos Vivos, Grafias e Inscrições da Terra”, Ariana Nuala propõe uma leitura do sertão como sistema de registro. O núcleo aproxima inscrições ancestrais, memória e tecnologias contemporâneas, explorando novas possibilidades de arquivo e preservação de narrativas.

O percurso é concluído com “Travessias e Poeiras que Vêm do Saara”, de Jean Carlos Azuos. O núcleo estabelece conexões entre Brasil e África a partir de relações geológicas, históricas e culturais, destacando fluxos de pessoas, conhecimentos e práticas que atravessam o Atlântico.

Relações entre Brasil e África

A abordagem do último núcleo amplia a discussão sobre o sertão para além de uma representação limitada ao interior brasileiro. A exposição apresenta o território como espaço de circulação, permanência e encontro de diferentes tempos e geografias.

A relação entre o Atlântico e o sertão aparece, portanto, como um dos eixos estruturantes da mostra. As obras articulam referências à diáspora africana, aos povos indígenas, às comunidades tradicionais, à memória e às transformações provocadas por processos históricos de deslocamento e colonização.

A presença de artistas de diferentes estados também amplia essa abordagem, reunindo produções que utilizam linguagens variadas e diferentes formas de registro. Pintura, escultura, fotografia, vídeo e instalação compõem o percurso expositivo.

Projeto e realização

“Atlântico Sertão” foi selecionada no Edital CCBB 2026-2027 e viabilizada por meio da Lei Rouanet. O projeto conta com apoio da Organização de Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), do Instituto Guimarães Rosa, do Ministério das Relações Exteriores (IGR/MRE) e do Museu de Arte do Rio (MAR).

A iniciativa é do Coletivo Atlântico, criado a partir da pesquisa desenvolvida por Marina Maciel e estruturado para levar a investigação teórica ao campo de intervenções e ações artísticas.

A exposição utiliza a produção contemporânea como meio para discutir memória, território, ancestralidade, direitos humanos, ecologia, tecnologia e circulação cultural, articulando obras de artistas de diferentes origens e trajetórias.

CCBB em Salvador

O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) é uma rede de espaços culturais administrada e mantida pelo Banco do Brasil. A instituição atua com programação voltada à produção cultural brasileira e mantém unidades no Rio de Janeiro, Brasília, São Paulo e Belo Horizonte.

Em Salvador, o CCBB está em processo de instalação de uma unidade no Palácio da Aclamação, edifício histórico construído no início do século XX e que durante mais de cinco décadas foi residência oficial dos governadores da Bahia.

Antes da abertura da unidade no Palácio da Aclamação, o CCBB já desenvolve atividades culturais em diferentes espaços de Salvador. A temporada de “Atlântico Sertão” no Museu de Arte da Bahia integra essa programação e antecede a continuidade da itinerância em Brasília.

Artistas participantes

A exposição reúne os seguintes artistas:

Abiniel João Nascimento (PE), Adenor Gondim (BA), Alê Siqueira (SP/BA), Alessandro Fracta (AM), Aline Motta (RJ), Amanda Melo (PE), Amilton (AL), Ana Neves (PE), Ana V. Lopes (RJ), André Vargas (RJ), Antonio Obá (DF), Antônio Sandes (AL), Aura do Nascimento (PE), Ayrson Heráclito (BA), biarritzzz (PE), Dalton Paula (DF), Denilson Baniwa (AM), Eliana Amorim (PE), Fykyá Pankararu (PE), Genauro (AL), George Teles (BA), Gervane de Paula (MT), Gilson Plano (GO), Gonçalves (AL), Gustavo Caboco (PR), J. Cunha (BA), Jaime Lauriano (SP), Jonas Van (CE), Juno B (CE), Joaci do Pandeiro (AL), Joaci Lima (AL), José Alves (PE), José Cícero (AL), José Rufino (PB), Juraci Dórea (BA), Juniara Albuquerque (PE), Leonardo França (BA), Lidia Lisbôa (PR), Lita Cerqueira (BA), Lucélia Maciel (BA), Luiz Barroso (PB), Maria Lira Marques (MG), Maria Macêdo (CE), Maré de Matos (MG), Marlene Almeida (PB), Marcos da Matta (BA), Márvila Araújo (BA), Mayra Carvalho (RJ), Mestre Benon (AL), Mitsy Queiroz (PE), Moara Tupinambá (PA), Mônica Barbosa (PI), Nádia Taquary (BA), Naywá Moura (PI), Rafa Bqueer (PA), Rafael Chavez (PB), Rebeca Miguel (MG), Rodrigo Braga (AM), rOnA (RJ), Ronald Duarte (RJ), Rose Afefé (BA), Bysmarke Vaqueiro (BA), Rosana Paulino (SP), SouPixo (CE), Tainan Cabral (RJ), Thaís Iroko (RJ), Thiago Costa (PB), Trojany (CE), Tunga (PE), Ventura Profana (BA), Véio (SE), William Maia (RJ), Wisrah C. V. da R. Celestino (MG), Xamânica (RJ), Tayná Uràz (RJ), Yacunã Tuxá (BA), Yhuri Cruz (RJ), Zé di Cabeça (BA), Ziel Karapotó (AL), Zumví Arquivo Afro Fotográfico (BA) e Àwọn arákùnrin oníṣẹ́-ọnà mẹ́ta (BA).


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Banner de Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.
Banner com tema Assine o JGB no Google.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading