O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, anunciou nesta segunda-feira (05/10/2026) a convocação de eleições legislativas antecipadas para 29 de novembro de 2026. A decisão ocorreu três dias após o Congresso rejeitar medidas apresentadas pelo governo para enfrentar a crise habitacional, em um cenário de protestos e dificuldades para a aprovação de propostas pelo Executivo.
O anúncio foi feito em pronunciamento no Palácio da Moncloa, residência oficial do primeiro-ministro. Sánchez informou que um Conselho de Ministros extraordinário seria convocado para formalizar os procedimentos necessários à realização do pleito, que estava inicialmente previsto para 2027.
A decisão ocorre após uma derrota política do governo na sexta-feira, quando o Congresso rejeitou medidas relacionadas à habitação. A votação evidenciou as dificuldades enfrentadas pela coalizão minoritária de Sánchez para reunir apoio parlamentar suficiente à aprovação das propostas do Executivo.
Crise habitacional amplia pressão sobre Sánchez
A crise de moradia ganhou dimensão nacional após o despejo, em 23/09/2026, de Maricarmen Abascal, de 87 anos. Ela deixou o imóvel onde vivia havia mais de 70 anos depois de não conseguir manter o pagamento do aluguel. O caso passou a ser utilizado como símbolo das dificuldades enfrentadas por moradores diante do aumento dos custos habitacionais.
O imóvel ocupado por Maricarmen havia sido adquirido por uma empresa de investimentos que pretendia elevar o aluguel em 275%. O episódio contribuiu para desencadear manifestações em diferentes cidades espanholas e ampliou a pressão sobre o governo por medidas de proteção aos inquilinos.
No sábado, 26/09/2026, dezenas de milhares de pessoas participaram de manifestações em Madri e em outras cidades espanholas em defesa do direito à moradia. Na capital, centenas de manifestantes permaneciam acampados na Puerta del Sol, reivindicando mudanças nas políticas habitacionais.
Governo busca maioria parlamentar mais ampla
Ao anunciar a antecipação das eleições, Sánchez afirmou que pretende obter uma maioria parlamentar mais ampla e progressista para aprovar reformas consideradas necessárias pelo governo. O líder socialista defendeu a continuidade de seu projeto político e transferiu aos eleitores a decisão sobre a composição do próximo Parlamento.
Sánchez está no poder desde 2018, quando assumiu o governo após uma moção de censura contra o então primeiro-ministro Mariano Rajoy. Desde então, o sistema político espanhol passou por diferentes eleições e governos de coalizão, em um cenário marcado pela fragmentação parlamentar.
A atual composição do Congresso dificultou a aprovação de propostas do Executivo. A rejeição das medidas relacionadas à habitação reforçou as limitações da estratégia governista para formar maiorias e contribuiu para a decisão de antecipar a votação nacional.
Partido Popular defende antecipação das eleições
O líder do Partido Popular (PP), Alberto Núñez Feijóo, reagiu ao anúncio de Sánchez defendendo a realização das eleições. O partido vinha cobrando a antecipação do pleito e afirmou que os eleitores deveriam ser chamados a decidir sobre a continuidade do atual governo.
Pesquisas de opinião mencionadas no cenário político espanhol colocam o PP à frente do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE). Os levantamentos também indicam que o partido conservador poderia não alcançar sozinho a maioria absoluta no Parlamento.
Nesse cenário, o Vox, apontado como terceira força política, poderia ter papel relevante nas negociações para a formação de um eventual governo liderado pelo PP. A configuração dependerá do resultado das eleições e dos acordos estabelecidos posteriormente entre os partidos.
Corrupção também pressiona governo socialista
Além da crise habitacional, Pedro Sánchez enfrenta desgaste político relacionado a investigações e denúncias de corrupção envolvendo pessoas próximas ao governo e ao Partido Socialista, incluindo familiares e colaboradores.
Os episódios passaram a integrar o discurso da oposição e aumentaram a pressão sobre o primeiro-ministro. O governo, por sua vez, mantém a defesa de sua atuação e busca apresentar as eleições como oportunidade para ampliar sua base parlamentar.
A combinação entre minoria no Congresso, dificuldades para aprovar medidas, denúncias de corrupção e pressão social por moradia contribuiu para o ambiente político que antecedeu a convocação das eleições antecipadas.
Situação migratória em Ceuta aumenta desafios
Outro tema que afeta o governo é a situação no enclave espanhol de Ceuta, no norte da África. A região registrou a entrada em massa de migrantes procedentes do Marrocos no fim de julho.
A permanência de parte dos migrantes em acampamentos improvisados provocou tensões e manifestações de moradores locais, que reivindicam medidas para restabelecer as condições anteriores na região.
A questão migratória acrescenta outro tema ao debate político espanhol, ao lado da habitação e das denúncias envolvendo integrantes do entorno do governo. A administração de Sánchez passou a enfrentar pressão simultânea em diferentes áreas da política interna.
Moradia é um dos principais temas da eleição
A falta de moradias acessíveis está entre os principais problemas sociais da Espanha. O aumento dos preços dos imóveis e dos aluguéis tem provocado debates sobre a oferta de residências, a atuação de investidores e o crescimento dos imóveis destinados à locação turística.
Plataformas de aluguel por temporada, como o Airbnb, e fundos de investimento são alvo de críticas de organizações ligadas à defesa do direito à moradia. Os críticos afirmam que a aquisição de imóveis por investidores e a destinação de unidades ao aluguel turístico podem reduzir a oferta disponível para residentes.
A crise habitacional deverá permanecer entre os principais assuntos da campanha eleitoral. O caso de Maricarmen Abascal e os protestos realizados em várias cidades transformaram o acesso à moradia em um dos temas centrais da disputa política.
Espanha terá eleições em 29 de novembro
Com a convocação anunciada por Sánchez, a Espanha realizará eleições legislativas em 29/11/2026, antecipando a votação que estava prevista para 2027. O pleito definirá a nova composição das Cortes Gerais, formadas pelo Congresso dos Deputados e pelo Senado.
A campanha deverá envolver principalmente PSOE, PP, Vox e outras forças políticas nacionais e regionais, com a formação de maiorias parlamentares como um dos principais desafios após a votação.
A eleição foi antecipada após uma combinação de fatores que inclui a derrota do governo no Congresso, a crise habitacional, os protestos pelo direito à moradia, as dificuldades da coalizão minoritária, denúncias de corrupção e a pressão da oposição. O resultado de novembro determinará a composição do próximo Parlamento e os acordos necessários para a formação do governo espanhol.
*Com informações da RFI.








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