Celebração da Vida | Por Emiliano José

O leitor sempre tem muitos modos de olhar. Cada um recebe o discurso dos autores de acordo com sua específica visão de mundo, sua cultura, sua experiência. Aqui, nessa leitura de Nadine Gordimer, de seu Get a life, que em português recebeu o título De volta à vida, as opções são variadas.

O leitor mais intimista pode voltar-se para o drama de Paul, um amante da vida e da natureza que, com 35 anos, é surpreendido por um câncer na tireóide. O tratamento contra a doença o torna um ser radioativo, ao menos por algum tempo. E isso o obriga a um confinamento, a uma espécie de prisão na casa dos pais, separado, por isso, da mulher e do filho.

Paul passa a olhar o mundo desse lugar. Não pode tocar em ninguém. Pode olhar as pessoas, amadas ou não, de longe. Suas roupas têm que ser lavadas separadamente. Seus talheres, pratos, xícaras, tudo só pode ser utilizado por ele, não pode ser tocado por mais ninguém. Podíamos pensar na metáfora da solidão do homem contemporâneo. E ele reflete sobre a vida, sobre sua mulher, seu filho de 5 anos a partir dessa espécie de prisão. A prisão do pestilento, do leproso, como ele se sente.

O leitor pode olhar para Berenice – mulher dele. Convivem – Paul e ela – em mundos tão distintos. Ele, um ecologista dedicado, defensor da natureza, da vida simples, do valor de uso das
coisas. Ela, publicitária, do mundo onde tudo é valor de troca,
sofisticação, mercadoria. Quem sabe, outra metáfora – aqui sobre a convivência de mundos diversos no capitalismo contemporâneo, hegemonizado pelo valor de troca.

Pode, ainda, o leitor perguntar-se sobre o lugar da paixão. Não parece que exista em Berenice, preocupada quase o tempo todo em agradar aos clientes da agência. Ou seria esta a sua paixão? A de Paul está clara – não é Berenice. É a natureza, e a natureza selvagem, para a qual ele se volta, com seus amigos negros, com um impressionante ardor, com paixão. Entre os dois há
uma convivência pacífica. Não paixão.

As dificuldades das relações amorosas aparecem, ainda, no casamento de Lindsay e Adrian, mãe e pai de Paul. Advogada famosa, Lindsay terá um amante durante quatro anos. Adrian sabe. E quando ela encerra o seu caso, o casamento persiste. À frente, é Adrian quem se apaixona, e parte para viver o amor. E depois morrer.

Mas, o leitor pode encontrar um outro viés. O romance se passa na África do Sul pós-apartheid. E essa militância de Paul e seus amigos, quem sabe, seja uma porta de saída para uma esquerda não tão entusiasmada com os ideais anteriores – antigos, se diria. A militância ecológica é uma dimensão nova e fundamental da política, fundamental para a sobrevivência da humanidade.

Quando a autora consegue devolver Paul à vida, de volta à vida, e quando ele e seus amigos ecologistas salvam o Delta do rio Okavango. Nadine Gordimer, uma brava militante contra o apartheid, celebra a existência, faz uma elegia à esperança. Tudo isso, no entanto, são devaneios de um leitor. De um leitor encantado. Porque o que ela faz mesmo, como sempre fez, é bela literatura, para o prazer imenso de quem a lê.

Não custa reiterar, ao final, ter sido Nadine Gordimer, durante toda a sua longa existência, uma ativista política contra o apartheid. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, em 1991, mas disse, numa entrevista, que o seu maior orgulho não fora esse prêmio, mas o de ter sido testemunha num julgamento para salvar as vidas de 22 membros de militantes políticos acusados de traição, em 1986. É entusiasmante possa uma pessoa colocar a beleza a favor da justiça – no caso, a beleza da literatura. E ainda mais quando ela tenha podido viver para ver o fim da ignomínia do apartheid.

Emiliano José | Jornalista e escritor. Autor de Marighella, o inimigo número um da ditadura militar e de Galeria F Lembranças do Mar Cinzento, partes I e II


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