
Participei, nos dias 7 e 8 de junho de 2018, do Encontro Nacional do Colégio de Corregedores Eleitorais, em Salvador/BA.
A Guerra da Independência, na Bahia, só terminou em 2 de julho de 1823. Portugueses, sitiados na antiga capital colonial, resistiram bravamente até a capitulação.
O aeroporto de Salvador, por isso, chamava-se “2 de Julho”. Hoje está denominado “Luiz Eduardo Magalhães”. Eu respeito, mas…
Foram dois dias de muitas discussões e trabalho. Estamos nos preparando para a dura tarefa de fiscalizar as eleições de 2018.
Em vez do abadá, trajei terno e gravata na canícula nordestina.
Uma sensação de condenado.
A antiga cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos é lúdica e sagrada ao mesmo tempo.
Exala magia por todos os cantos.
O português Luís dos Santos Vilhena mudou-se para a capital baiana em 1787, para dar aulas de grego. Batizou a cidade de “Soterópolis” (do grego “soter” = salvador; e “polis” = cidade). Publicou as famosas “Cartas das Notícias Soteropolitanas e Brasílicas”. Daí a designação de “soteropolitanos” aos nascidos em Salvador.
Ao me deitar no quarto do hotel, quinta-feira à noite, fiz um tour espiritual pela cidade. Fui abduzido para o passado remoto e o mundo da ficção.
Ouvi o “Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda”, proferido pelo Padre Antônio Vieira, na Bahia, em 1640:
“Em castigar, vencei-nos a nós, que somos criaturas fracas; mas em perdoar, vencei-Vos a Vós mesmo, que sois todo-poderoso e infinito. Só esta vitória é digna de Vós, porque só vossa justiça pode pelejar com armas iguais contra vossa misericórdia; e sendo infinito o vencido, infinita fica a glória do vencedor”.
O Tribunal da Relação da Bahia foi criado pela Coroa Portuguesa, em 1609 (o registro é do jurista e historiador baiano Pedro Calmon, em “História do Brasil”, José Olympio, vol. II, 1959). É, portanto, o mais antigo Tribunal de Justiça do Brasil.
Fato interessante: o Padre Vieira nasceu em Lisboa, Portugal, no ano de 1608. Ainda menino, mudou-se para Salvador – então capital da Colônia . Em 1614, seu pai Cristóvão Vieira Ravasco passou a atuar como escrivão no Tribunal da Relação. Logo, a criação do tribunal colonial ligou ao Brasil a pujante existência do religioso.
Ri com o poeta baiano Gregório de Matos (1636-1696), alcunhado mui merecidamente “Boca do Inferno”, quando dedicou alguns versos ao então vice-rei do Brasil, D. Afonso Furtado de Mendonça Castro do Rio e Menezes:
“Ladrão como mentecapto
no profundo do porão,
passado como ladrão,
e fino como mulato:
deram-lhe muito mau trato
em o trazer amarrado,
sendo que andou como honrado
em seguir aquela via,
que eu não vi na fidalguia
Mendonça sem ter Furtado”.
Ressoou no meu ouvido a poesia gongórica de Castro Alves, em “Vozes D’África”:
“Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?”
Passei pela famosa casa da Rua Alagoinhas, nº 33, bairro Rio Vermelho. Jorge Amado remeteu-me, noite alta, aos becos e baixas do centro histórico.
Eu quis acompanhar, sem sucesso, as estroinices de Quincas Berro d’Água e testemunhar sua improvável terceira morte.
Tentei ouvir, em vão, os suspiros amorosos de Dona Flor.
Não me arreceei dos Capitães da Areia e esperei o dia amanhecer.
Divisei o morno mar azul-verde da costa baiana, espelhando o brilho do sol nascente.
Por onde andarão os Velhos Marinheiros?
Em que porto Vasco Moscoso de Aragão, Capitão de Longo Curso, amarrou todas as cordas do seu navio?
No entorno do Mercado Modelo, ainda mirando o oceano, escutei Dorival Caymmi e Tom Jobim, a cantar a pachorrenta música “Saudade da Bahia”:
“Ai, ai que saudade eu tenho da Bahia
Ai, se eu escutasse o que mamãe dizia
Bem, não vá deixar a sua mãe aflita
A gente faz o que o coração dita
Mas esse mundo é feito de maldade e ilusão
Ai, se eu escutasse hoje não sofria
Ai, esta saudade dentro do meu peito
Ai, se ter saudade é ter algum defeito
Eu pelo menos, mereço o direito
De ter alguém com quem eu possa me confessar
Ponha-se no meu lugar
E veja como sofre um homem infeliz
Que teve que desabafar
Dizendo a todo mundo o que ninguém diz
Vejam que situação
E vejam como sofre um pobre coração
Pobre de quem acredita
Na glória e no dinheiro para ser feliz.”
Do outro lado da Baía de Todos os Santos, vislumbrei a Ilha de Itaparica, berço do escritor João Ubaldo Ribeiro. Como ele, tenho horror a mesóclises.
Desliguei-me dos ruídos dos tambores do Olodum, para a excitação não me causar insônia.
No quarto do hotel, o espectro de Jorge Amado apareceu-me e esbravejou:
– Moço, chega de abstrações! O que de concreto fizeste na Terra dos Orixás?
Ao que respondi:
– Mestre, além de palestras e reuniões, comi bastante. Aproveitei o sincretismo religioso daqui para me fartar em um sincretismo culinário. Nem te conto! Tenho medo da minha senhora e meu médico descobrirem… Um beijo para a sua doce Zélia!
Ah, sim! Na Bahia também sorvo as letras jurídicas de Rui Barbosa, Pedro Calmon e Orlando Gomes.
Axé para todos!
*Rogério Medeiros Garcia de Lima, desembargador do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) e Corregedor Regional Eleitoral do TRE do Estado de Minas Gerais.







