A indústria cultural baiana

Surge na década de 1970 em Salvador um vigoroso movimento cultural capitaneado pelos grupos culturais negros, que se constitui em um fenômeno artístico-cultural à época chamado de “negritude”: a valorização pela comunidade afro-descendente da cultura, música, religião, dança, estética e tudo o que faz referência à tradição dos negros e a sua origem africana.

Nos anos 1980 o Pelourinho se torna o “locus” privilegiado para o encontro e entretenimento da juventude “negro-mestiça” de Salvador. As festas ali organizadas reúnem multidões e fazem reviver o velho tecido urbano. A expressão maior dessas manifestações se produz no carnaval e nas noites de terça-feira, quando ocorre a missa de Santo Antônio, às 18h, com a Benção de São Francisco, na majestosa “igreja de ouro”. O hábito dos freqüentadores da missa irem, após a função religiosa, para os bares e restaurantes da área deu início a uma grande festa popular, a Terça da Benção que se espalha pelas ruas, clubes e bares do Centro Histórico.

Esse movimento cultural de afirmação da identidade negra vai ser lucrativamente incorporado à industria cultural emergente na Bahia, através da rentável indústria fonográfica, rádios locais, shows musicais e o próspero carnaval das organizações carnavalescas.

Fundam-se inúmeras agremiações carnavalescas afro ostentando nomes sonoros em língua ioruba como Ylê Ayê, Muzenza, Araketu, Olodum… este último com sede no Pelourinho, e que elegeu a “comunidade do Pelô” (diminutivo pessoalizado e carinhoso que passa a designar o Centro Histórico) como seu tema e inspiração.

Muitas dessas organizações carnavalescas se estruturaram como Organizações Não Governamentais (ONGs) que desenvolvem projetos de inclusão social junto às comunidades dos bairros onde estavam localizadas, porém, antes de tudo, se constituem em organizações carnavalescas voltadas para a festa, o lazer e entretenimento. As rádios da Bahia e a indústria fonográfica investem nos novos ritmos musicais que surgem e que logo se tornam sucesso e modismo internacional.

É como se houvesse uma efervescência cultural negra nos anos 1980-1990. Cria-se um produto chamado “Bahia” intrinsecamente ligado à indústria cultural que estimula e impulsiona a economia e o turismo baiano.

Cabe aqui definir o que é indústria cultural: a mercadorização das condições de produção, circulação, apropriação e consumo dos bens e serviços culturais.

Desde então a indústria cultural baiana não pára de crescer. É no verão e, principalmente, durante o carnaval que ela alcança o seu apogeu.

Novas danças – ou arremedo de danças, meras coreografias lúdicas – novos ritmos e tendências musicais são lançadas e batizadas com nomes prosaicos e pouco imaginativos como “axé music”, pagode, “arrocha” ou coisa que o valha; enciumado o Rio de Janeiro tenta lançar modas e rivalizar com a profícua Bahia.

Entretanto, não se coisifica e transforma a cultura em mercadoria impunemente. Ao lado do aspecto econômico positivo, de gerar emprego e renda, com reflexos favoráveis no campo da inclusão social através da arte e da cultura, se manifesta o caráter maléfico de tal fenômeno, que é a vulgarização e mediocrização da cultura tornada negócio.

Tal qual um Rei Midas ao contrário, a arte banalizada se torna vulgar, medíocre e lixo cultural. O que antes eram genuínas e ricas manifestações culturais baiana, como a chula, o samba de roda, as danças iorubaianas, o trio elétrico de Dodô e Osmar… se macaqueiam, empobrecem e viram uma versão pálida e grotesca da arte de outrora.

Produtos de fácil consumo, voltado para as massas de baixa escolarização, não trazem consigo nada de educativo, de “bom gosto”, que contribua para a evolução mental ou cognitiva do povo, ou sequer para o deleite estético, pois ritmicamente e poeticamente são manifestações ‘artísticas” muito pobres, quiçá grotescas.

Para não cometer injustiça, se faz necessário lembrar que existem exceções. Porém, infelizmente também há exemplos de artistas populares que despontam pela qualidade da sua produção rítmica e poética, mas, cedendo aos apelos da fórmula do sucesso popular rápido e seduzidos pela chance de ganhar dinheiro fácil, baixam o nível, até beirar a demência, dos seus novos artefatos na forma de discos e espetáculos.

Faz-se mister políticas culturais dignificantes, para a educação das massas, divulgação da verdadeira e rica cultura baiana. Existe um bom exemplo que vem do Recife, dos carnavais pernambucanos. A Bahia tem todas as possibilidades de encontrar o seu caminho, pois, como já disse um popular menestrel: baiano burro nasce morto. Ou não?


Descubra mais sobre Jornal Grande Bahia (JGB)

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


Avatar de Juarez Duarte Bomfim

Valorize o jornalismo crítico, plural, rigoroso e comprometido com a verdade factual, a democracia, o Estado de Direito e o interesse público. Escolha o Jornal Grande Bahia (JGB) como fonte preferida no Google: clique aqui.

Sua confiança também fortalece nosso trabalho: avalie o JGB

Selecione o JGB e receba nossas notícias com mais destaque.


Deixe um comentário


Banner de Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.
Banner com tema Assine o JGB no Google.