A importância dos movimentos sociais

Na era da globalização os cientistas sociais desenvolveram novos conceitos para a compreensão do fenômeno da marginalidade urbana, com a difusão de termos como “exclusão social”, “precarização do trabalho” e outros. O desemprego e a informalidade aumentaram o fosso entre os mais ricos e os mais pobres, concentrando a renda e aumentando a desigualdade social. Este problema ocorre em todas as regiões metropolitanas brasileiras e em cidades de porte médio, como Feira de Santana. O corolário dessa condição é a situação de explosão social e extrema violência na qual vivem as nossas cidades.

Dentro desse quadro de pobreza urbana compreendem-se os inúmeros e engenhosos recursos, dia a dia inventados pelos mais pobres, como suas estratégias de sobrevivência: a inevitável exploração do trabalho infantil, o infeliz aumento da prostituição juvenil, a compra miúda no comércio de bairro, o auxílio mútuo através do trabalho solidário e tantas outras estratégias são testemunhos da capacidade de improvisar e “se virar” cotidianamente renovada pelas camadas mais pobres da população brasileira em sua árdua luta pela sobrevivência, na era do “fim dos empregos” e do “adeus ao trabalho”.

A situação de pobreza leva crianças e adolescentes ao ingresso prematuro e precário na atividade econômica. Porém, o baixo crescimento econômico e o quadro de escassez de empregos, em meio ao elevado excedente de mão-de-obra, tornam os jovens em idade legal de trabalhar um dos segmentos mais frágeis na disputa por um posto de trabalho em um mercado cada vez mais seletivo.

Pergunta: quais as ações do poder público, do Estado, para reverter esse quadro de marginalidade urbana?

Para compreender o comportamento do Estado frente à população carente se faz necessário analisar o fenômeno da pobreza como um estigma, isto é, a discriminação que o Estado e a sociedade fazem em relação às camadas pobres residentes nas favelas e bairros populares das cidades, associando os moradores de baixa renda à criminalidade, insegurança e medo, como se estes fossem os responsáveis pela situação, e não as vítimas do modelo sócio-econômico excludente.

Essa discriminação influencia os gestores públicos no momento de se traçarem políticas e se locarem recursos: é sempre minguada a verba destinada ao interesse dos mais pobres, comparado ao que é desprendido para atender à população mais abastada. Cria-se um círculo vicioso de reprodução da pobreza, e as políticas governamentais se tornam ineficazes.

Junto a isso, no caso brasileiro identifica-se que as ações governamentais de dotação de equipamentos e serviços urbanos à população mais carente – moradores de bairros populares, usuários de transporte coletivo, pedestres etc – só acontecem após muita mobilização e pressão das comunidades ou dos usuários, através dos seus movimentos sociais. A simples instalação de semáforos ou a construção de passarelas para pedestres só são conseguidos pelos usuários após mortes e atropelamentos que geram protestos e intensa mobilização social – com o Estado sempre respondendo tardiamente às demandas, e nunca se antecipando a elas.

Quando não contam com uma articulação coletiva para reivindicar benefícios do Estado, a população marginalizada perde a “queda de braço” frente a um contendor mais poderoso como é o Estado.

Os movimentos sociais brasileiros, após a redemocratização do país em 1985, têm acumulado experiência de organização e luta para pressionar o Estado a satisfazer as suas demandas.

Esses movimentos sociais adquiriram a consciência de que só assim, com intensas mobilizações sociais – muitas delas violentas – conseguem obter vantagens junto ao Estado.

Por isso, apesar de às vezes termos o nosso cotidiano afetado por essas mobilizações populares – greves, manifestações de rua… – é necessário lembrarmos de que em muitas situações essa é a única forma do oprimido se fazer visível – e se fazer ouvir.


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