O início do fim | Por Emiliano José

Iniciamos 2009 sob o impacto da crise, que não respeita calendário. Não se trata de uma crise de 2008, mas de uma turbulência duradoura. Não vamos apertar os cintos por alguns minutos e depois tudo volta à calma. Como diria Slavoj Zizek, trata-se de uma crise do capital e uma crise da geopolítica global. (CartaCapital, (22/10/2008). Na opinião dele, que me parece correta, a crise marca o fim do “século americano”. Penso, no entanto, que esse fim não se dá assim de súbito, mas como um processo que levará alguns anos.

E o que desponta no lugar do século americano? A formação de diversos centros do capitalismo global, inclusive na América Latina, e creio que aí se inclui o Brasil. O que quer dizer que ao falarmos de crise do capital não estamos falando em fim do capitalismo, sempre anunciado quando alguma grande crise aparece. O capitalismo é um modo de produção extraordinariamente dinâmico – e aqui relembro Marx – e suas possibilidades de recuperação são inegavelmente poderosas – ao menos na quadra histórica que vivemos.

O que a crise parece indicar, na sua conseqüência política, é que o poder não estará mais concentrado num único país – os EUA. Isso, de alguma forma, já se fazia presente. A crise, no entanto, com sua intensidade, demonstrou que os EUA sozinhos não podiam mais, a seu modo, dar conta da complexidade dos problemas mundiais, nem da crise do capitalismo. O mundo reclama a presença de outros atores. Sarkosi, em visita ao Brasil, ressaltou isso. Não dá mais para entregar os destinos do mundo apenas ao G-8.

E a crise indica, além do papel fundamental da China, um destaque novo para a América Latina, hoje sob governos preponderantemente progressistas e de esquerda. Foi sob esses governos que o Continente se afirmou, marcando sua soberania, afirmando políticas públicas voltadas para seus povos, principalmente para os mais pobres. Governos operários, indígenas, populares. Derrota da Alca, fim do papel do FMI, busca de uma unidade continental, afirmação do papel estratégico do Brasil e da liderança do presidente Lula. A América Latina não é mais o quintal dos EUA.

E indica também que, quando os grandes são afetados, o capitalismo não tem dúvida em lançar mão do Estado. Besteira quando se celebra isso sem analisar como essa intervenção se dá. No centro do capitalismo, toda ela foi voltada para salvar os bancos. Não se trata de medidas socializantes. O Estado capitalista nunca agiu diferente.

Nem se queira, por qualquer esforço de aproximação, falar em New Deal. Trata-se de socializar os prejuízos, especialmente as perdas dos bancos. Ou das grandes montadoras. Os pequenos empreendedores não estão protegidos contra qualquer bancarrota, menos ainda os assalariados. Os grandes, sim. Para isso, existe o Estado. Para salvaguardar o capitalismo.


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