AP : a agonia de um ícone da era da informação escassa | Por Carlos Castilho

Até a década de 1970, a sigla AP era sinônimo de solidez, credibilidade e poder. Fundada em 1846, a agência de notícias Associated Press dominou o cenário jornalístico mundial durante mais de um século e meio mas agora trava uma luta desesperada contra o avanço da modernidade.

O modelo de negócios da agência, desenvolvido na era da informação escassa, já não funciona mais quando o acesso à noticia se tornou tão fácil e comum que seu preço caiu a quase zero. Com isto, ficou insustentável manter uma estrutura que já teve 240 escritórios e quase mil correspondentes espalhados em até 121 países, nos anos 1960 e 70.

A cooperativa foi fundada por cinco jornais norte-americanos para baratear os custos de cobertura da guerra de 1846, na qual o México perdeu o Texas para os Estados Unidos. Na época, as notícias eram levadas por mensageiros que usavam barco, cavalo, carruagem e telégrafo até chegar a Nova York, quase uma semana depois.

Não há a menor dúvida de que a Associated Press é mais uma vítima das novas tecnologias de comunicação e informação. Mas em vez de aceitar a irreversibilidade do processo, a AP resolveu morrer atirando em todas as direções, mesmo que os seus sócios já considerem a guerra perdida.

Seu diretor Dean Singleton (foto ao lado) deflagrou uma ofensiva jurídica para processar todos os sites de notícias como o Google News, Topix, MSNNews e Yahoo News, que produzem páginas informativas com base em jornais e revistas que recebem material da AP. A agência alega que o Google News e similares “roubam” material noticioso porque não pagam nada por ele.

Acontece que o radicalismo de Singleton não é acompanhado pela maioria dos integrantes da cooperativa da AP — que não só acham inútil a batalha pela cobrança de direitos autorais, como estão convencidos de que o Google News atrai leitores para as versões impressas de jornais e revistas.

Outro paradoxo da polêmica decisão da Associated Press é que os seus sócios e clientes oferecem de graça nas suas páginas na Web o mesmo material que a agência quer cobrar do Google, Yahoo, Topix e outros.

Saul Hansel, o criador e editor do blog Bits, publicado pelo The New York Times, afirma, com uma ponta de ironia, que a AP foi a primeira empresa 2.0[1] no ramo jornalístico ao iniciar o processo de barateamento da notícia quando introduziu sistemas automáticos de distribuição como o teletipo (ao lado). Ao comentar a decisão de Dean Singleton, Hansel foi enfático: “Em lugar de lutar contra moinhos de vento, a AP deveria é sair do mercado”.

O dilema da Associated Press não é isolado dentro da imprensa convencional. Há dezenas de outras empresas do ramo jornalístico que estão no chamado “corredor da morte” da internet. É um caso que deveria ser estudado e pesquisado porque não é uma questão de falta de conhecimento ou informação. Afinal, esta é a matéria prima das agências de noticias, dos jornais, revistas, rádios e TVs.

O grande problema das empresas no “corredor da morte” é a ausência de uma cultura corporativa aberta à inovação. No caso das empresas de capital aberto, os acionistas primeiro exigiram cortes drásticos nas redações, alheios ao fato de que estavam estrangulando o sistema que gerava a própria razão de ser do negócio jornalístico.

Já nas empresas dominadas por famílias tradicionais na imprensa, faltou modéstia para reconhecer que o tempo das vacas gordas está acabando e que a hora de mudar já está quase esgotada. Não há duvida de que é difícil convencer-se de que balanços anuais com lucros de 20%, ou maiores que isso, já não se repetem mais.

Mais difícil ainda é aceitar que uma empresa como a AP, dona de um acervo único em matéria de dados e informações, prefira afundar atirando contra moinhos de vento em vez de compartilhar a sua rica experiência com todos aqueles que estão buscando um novo modelo de produção de notícias jornalísticas.


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