O livro e a Internet | Por Luis Amorim

Ouvi, há bastante tempo, num telejornal, uma notícia que me deixou feliz, mas ao mesmo tempo descrente: a venda de livros infanto-juvenis, no Brasil, subiu 50% (cinqüenta por cento!). Só que este índice fabuloso, segundo a notícia, era creditado à Internet. E foi este crédito que tornou discutível a informação. Está certo que a Internet facilita a divulgação de quase tudo o que é publicado, tanto no suporte tradicional, o livro impresso, como em outras mídias, proporcionando maiores opções de escolha. Mas daí a dizer que foi ela quem provocou um aumento tão significativo nas vendas, pode caracterizar algum exagero.

A Internet é um recurso tecnológico valioso na pesquisa de qualquer assunto e uma ferramenta insubstituível nos dias atuais. Mas é sabido, também, que os adolescentes que têm acesso, não vão à rede procurar novos títulos para ler, com raras exceções.

Eles participam de bate-papos em salas de chat, no orkut, skype e outros programas de comunicação, participam de jogos on-line, capturam e trocam músicas, navegam ao sabor dos sites. O que é natural, diga-se de passagem, mas isso ocupa um tempo que poderia ser usado para ler, por exemplo. É, portanto, temeroso, creditar à Internet o crescimento do índice de leitura em crianças e adolescentes.

Acredito que o índice de cinqüenta por cento no incremento da venda de livros infanto-juvenis pode ser correto, pois como já escrevemos em outra oportunidade, o que vimos nas últimas Bienais do Livro (e muitas feiras do livro) ajuda a corroborar isto: famílias inteiras foram à feira, pagando ingresso para poder comprar livros e saíam de lá sempre com algum título nas mãos. E quando digo famílias inteiras, quero dizer pais com os filhos – crianças, jovens, adolescentes.

Interessante que, poucos dias depois de ouvir essa notícia, leio numa dessas revistas semanais de informação, uma matéria de capa a respeito de pesquisa sobre leitura, que veio de encontro àquilo que havíamos concluído: o brasileiro gosta de ler. Ele pode até não ter dinheiro para comprar livros, mas gosta de ler.

De acordo com a pesquisa, 78% de cinco mil, quinhentos e três pessoas consultadas em quarenta cidades brasileiras, gostam de ler livros – e há que se considerar que esta é uma esmagadora maioria daqueles que responderam ao que foi perguntado.

Outra descoberta interessante é quanto aos gêneros preferidos por esse índice de 78 % das pessoas entrevistadas, que tinham idade a partir de quatorze anos. Vinte e nove por cento prefere a literatura classificada como adulta pela pesquisa, onde se inclui ficção, história da literatura, ensaios, poesia.

A literatura infanto-juvenil quase não aparece nesta pesquisa, pois os entrevistados tinham a partir de quatorze anos: apenas quatro por cento. Mas se as vendas dos livros infanto-juvenis cresceram cinqüenta por cento – e sabemos que este gênero é um dos que mais vende, nos últimos tempos – em se baixando o limite de idade para sete anos ou menos, na referida pesquisa, o índice seria muito maior.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Dupla de profissionais de saúde sorrindo, vestindo uniformes, com uma cidade ao fundo e texto promocional sobre saúde.
Banner promocional da JADS FOTO, destacando serviços de fotografia e personalização, incluindo contatos e lista de produtos.
Logo da RFI em português, com as letras 'rfi' em vermelho sobre fundo branco e a palavra 'português' em vermelho, abaixo com uma linha horizontal.
Imagem comemorativa de 19 anos do Jornal Grande Bahia, destacando seu compromisso com jornalismo independente e informação precisa.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading