O Conselho Monetário Nacional (CMN) decidiu, nesta terça-feira, que a meta de inflação para 2011 permanecerá em 4,5%, anunciou o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo.
O governo repete, assim, a mesma taxa aplicada para os anos de 2009 e 2010.
O número servirá como “alvo” da política monetária já a partir de 2010, já que as decisões sobre os juros podem levar até nove meses para surtir efeito sobre a inflação.
Alguns analistas de mercado chegaram a argumentar que o Brasil teria espaço para reduzir a meta em 2011, já que a crise econômica reduziu o consumo e, em consequencia, a possibilidade de alta dos preços.
No entanto, a maioria dos especialistas já apostava na manutenção da taxa em 4,5%. A explicação é de que a inflação voltará a assustar assim que os países começarem a se recuperar.
Entenda o que está por trás da decisão do governo.
Por que o governo optou por manter a meta em 4,5%?
A manutenção da meta em 4,5% indica que o governo ainda não vê espaço para uma redução significativa da inflação no país.
Os preços de algumas commodities, que têm grande influência sobre a inflação no país, já mostram sinais de recuperação. Até 2011, é provável que subam ainda mais.
Além disso, uma taxa menor diminui as chances de acerto do Banco Central. E se a inflação der sinais de que irá ultrapassar o alvo, o governo precisará intervir por meio do aumento das taxas de juros, o que prejudica o crescimento da economia.
Um exemplo desse processo ocorreu no ano passado, quando a inflação ficou em 5,9%. O número ficou dentro da faixa de tolerância (2,5% – 6,5%), mas muito acima do centro da meta, de 4,5%.
O Banco Central se viu obrigado, então, a iniciar um processo de elevação dos juros, que passou de 11,25%, taxa de junho, para 13,75%, em dezembro. Com o agravamento da crise financeira global, entretanto, o BC voltou a cortar os juros.
Qual seria a vantagem, então, de ter uma meta mais apertada?
A meta permite maior controle inflacionário. Os governos que adotam esse sistema, em tese, buscam cumprir seus compromissos, atingindo uma inflação “aceitável”.
Em 1999, quando o governo brasileiro adotou o sistema, o alvo da meta para a inflação era de 8%. Naquele mesmo ano, a inflação efetiva ficou próxima ao centro da meta, com 8,94%. Atualmente, a meta está em 4,5% e o mercado prevê uma inflação de 4,33%.
Os economistas favoráveis ao modelo argumentam que, se a meta for menor, as expectativas de inflação tendem a convergir para esse novo patamar, reduzindo ainda mais a inflação no país. Nesse caso, não haveria necessidade de aumentar os juros.
O ideal é que a meta seja sempre a menor possível, mas sem descolar da realidade.
A decisão costuma ser técnica ou política?
Os dois fatores acabam influenciando a decisão. Do ponto de vista técnico, alguns economistas avaliam que, em função da crise, a inflação deverá ceder nos próximos anos, abrindo espaço para a redução da meta.
No entanto, os próprios economistas argumentam que essa não é uma decisão fácil, pois no meio do caminho existe a eleição para a Presidência e governos estaduais.
Uma meta menor para 2011 poderia resultar em um aperto monetário em 2010, fato que não seria positivo para o governo em época de campanha.
Quem decide a meta?
A decisão está nas mãos do Conselho Monetário Nacional, composto pelos ministros da Fazenda e do Planejamento, além do presidente do Banco Central.
No ano passado, durante as discussões sobre a meta de 2010, havia sinais de discordância entre os representantes do CMN. Enquanto o ministro da Fazenda, Guido Mantega, defendia a manutenção da meta em 4,5%, o Banco Central via espaço para uma meta menor.
Este ano, porém, a disputa não foi tão visível. Uma explicação seria o fato de os ministros estarem de acordo sobre o futuro da economia.
O que é a meta para inflação?
No sistema de metas para inflação, o governo torna público qual índice de inflação pretende perseguir. Dessa forma, sua política de juros torna-se mais previsível aos mercados e à sociedade em geral.
Nesse contexto, se a inflação “fugir” muito da meta, é possível prever com maior precisão qual será a reação do governo. Se a inflação estourar o teto, por exemplo, é plausível esperar juros maiores.
O sistema de metas para a inflação foi adotado pelo Brasil em 1999, mas nem todos os países seguem o modelo. Um exemplo são os Estados Unidos, onde o governo divulga uma faixa de inflação “desejável”, mas não uma meta explícita.
Quais são as vantagens e desvantagens desse modelo?
O sistema de metas vem sendo elogiado em diversos países. A principal razão está na maior transparência e previsibilidade que o sistema confere aos bancos centrais.
Segundo esses especialistas, o sistema é particularmente vantajoso para economias em desenvolvimento, que muitas vezes ainda estão conquistando a confiança dos mercados e da sociedade.
Para o economista da LCA Consultores, Bráulio Borges, o sistema “veio para ficar no Brasil”. “Precisa ainda ser aprimorado, mas certamente é vantajoso para o país”, diz.
O modelo, no entanto, também é motivo de críticas. Para alguns economistas, o sistema de metas torna os bancos centrais muito focados em inflação – e acabam deixando de lado outros fatores, como o desemprego.
O argumento é de que, em algumas situações extremas ou anômalas, como em épocas de crise financeira ou de desemprego, os governos devem ter maior flexibilidade para mexer nos juros. Em outras palavras, o banco central deveria considerar outras prioridades que não a inflação.
O economista da Unicamp e conselheiro informal do presidente Lula Luiz Gonzaga Belluzzo costuma dizer que o sistema de metas para inflação “não pode ser uma disputa de tiro ao alvo”.
Para ele, o Banco Central deveria aceitar mais a margem de tolerância (de dois pontos percentuais) em sua política monetária e, assim, dar maior atenção a outros indicadores.
*Com informação do BBC Brasil.









Deixe um comentário