A apimentada culinária indiana

A apimentada culinária indiana.
A apimentada culinária indiana.

Alguns apressados poderiam resumir a sofisticada culinária indiana a uma intricada mistura de pimenta com pimenta, pimenta, mais pimenta e ah… não esquecer: pimenta!

Ainda no século XV, portugueses se aventuraram ao mar a caminho das Índias, em busca das cobiçadas especiarias.

A frota comandada por Pedro Álvares Cabral assim também o fez e, talvez por acaso, por um grasso erro de orientação marítima, descobriu o Brasil.

Dúvida filosófica emerge: importante descoberta provocada pelo abominável e intragável tempero cominho… valeu a pena?

Deixo a dúvida e essencial pergunta aos meus dois ou três leitores, que talvez sejam fãs dos detestáveis cominho e curry, e tecerei comentários sobre a perigosa aventura de 23 excursionistas brasileiros pela condimentada e apimentada culinária indiana.

Baiano come com coentro, todos sabem disso, e bastante pimenta. Conselho valioso para desavisados turistas que visitam a Boa Terra é aquele de estarem alerta à inevitável pergunta das baianas de acarajé por trás do apetitoso tabuleiro:

– Quer (acarajé) quente, freguês?

A resposta afirmativa submeterá o incauto visitante à terra da balouçante cantora Ivete Sangalo a um apimentadíssimo bolinho frito, que o fará soltar fogo pelas ventas.

Assim também é na Índia. Alguns apressados poderiam resumir a sofisticada culinária indiana a uma intricada mistura de pimenta com pimenta, pimenta, mais pimenta e ah… não esquecer: pimenta!

Mas não é isso, não é assim. Confesso que a cozinha vegetariana da Índia é meio intragável com tanto cominho e curry… quanto à pimenta, pelo menos os brasileiros de origem baiana resistem bravamente. O frango ou o cordeiro indiano apimentados são deliciosos.

Bem, os caras exageram um pouquinho, não precisavam colocar pimenta no café da manhã, por exemplo, ou escondê-la dentro do açucareiro, tipo uma pegadinha para turistas ocidentais… Foi por essas e outras que me divertia muito ver a agonia e pânico de certos excursionistas brasileiros na hora das refeições.

Um carioca do grupo, com o qual travei amizade, era dos mais notados na sua aversão à pimenta. Parecia que as três refeições diárias representavam para o mesmo um momento de crasso sofrimento.

Chamava-se Klebson, serventuário da justiça carioca. Ele entrava na fila da refeição para o self-service, assim como menino para a fila da vacina, na expectativa da dolorosa picada no braço…

Como era um jogo no escuro, onde imperava a incerteza, a pimenta lhe atacava de onde menos se esperava. Quem cogitaria que um simples bolinho salgado matinal, que acompanhava o pão chapata indiano, estivesse recheado de… imagine?… Pimenta!

O esgar de terror que aparecia na face do Klebson antecedia o seu grito no luxuoso salão dos hotéis do pacote turístico:

– Pimenta!

Por essas e outras éramos tratados pelos guias turísticos com excesso de zelo, como se fôssemos crianças. Numa parada num bem decorado restaurante de beira de estrada, para o almoço, havia uma refeição self-service que parecia deliciosa, mas fomos “proibidos” pelos guias turísticos de degustá-la… Por quê? Indaguei da simpática Lakshmi, nossa “anjo da guarda” daquele exótico lugar.

– É que tem pimenta, señor – improvisava um portunhol para ser entendida pela maioria dos brasileiros.

Existe um povo brasileiro? Pergunta sociológica da mais alta relevância… Se formos respondê-la pela atração ou aversão à pimenta, a resposta certamente seria não. Os baianos da gema não compartilham dessa quizila (alergia) de outros brasileiros para com a indefesa pimenta. Muito pelo contrário: amamos a pimenta!

Quer seja quer não… ainda naquele auspicioso restaurante de beira de estrada, eu invejava os gorduchos indianos que se refestelavam com as suas iguarias culinárias enquanto, por espírito de grupo, éramos obrigados a acompanhar os demais brasileiros na sua comida “a la carte” sem graça…

Continuamos…


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