Após 20 anos da queda do Muro de Berlim, antigos países socialistas ainda se adaptam ao capitalismo

A reunificação das Alemanhas foi muito festejada. Mas a maioria da população não percebeu o tamanho do desafio econômico”, diz o diplomata Holger Klitzing, que trabalha na Embaixada da Alemanha em Brasília.
A reunificação das Alemanhas foi muito festejada. Mas a maioria da população não percebeu o tamanho do desafio econômico”, diz o diplomata Holger Klitzing, que trabalha na Embaixada da Alemanha em Brasília.

Quando o Muro de Berlim caiu em 9 de novembro de 1989, o socialismo já não tinha qualquer apelo entre os jovens dos países do Leste Europeu. O desenvolvimento tecnológico e o estilo de vida de consumo do Ocidente exerciam forte influência sobre os “filhos do Muro” – uma geração de jovens nascidos depois de 1961.

“O poder do consumo é muito forte. Não adianta tentar sensibilizar o jovem dizendo que a pobreza havia sido erradicada, todos seriam alfabetizados, não havia mendicância e idosos abandonados. Esse discurso não sensibiliza quem já nasce com isso”, diz Virgílio Arraes, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB).

A partir da queda do muro, cada uma das economias planejadas do bloco socialista abraçou o modelo capitalista sob forma de democracias neoliberais. Este fenômeno se espalhou pelo Leste Europeu a partir de 1989 resultando na completa desintegração da União Soviética dois anos depois. Foi o caminho contrário da China, que manteve o regime político fechado e adotou uma política econômica agressiva no plano internacional.

O Leste Europeu foi uma das regiões que mais sofreu os impactos da crise internacional de 2008. Nessa semana, o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou que a economia russa deve ter uma queda de 7,5% neste ano, um número bem pior que a média mundial (-1,1%), Estados Unidos (-2,7%) e Brasil (-0,7%). O que mais afeta a região é a dependência de dinheiro no mercado internacional.

Arraes nota que os ex-socialistas acreditaram no canto da sereia do mercado: “O Ocidente apresentou uma proposta miraculosa. Se houvesse adesão irrestrita às normas do mercado, com privatizações e redução do papel do Estado, as economias voltariam a crescer rapidamente”.

O assessor especial da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, ressalta que, apesar do caráter pacífico, a fase posterior a 1989 causou “problemas” para o governo da então União Soviética. “A mudança trouxe problemas gravíssimos e não houve uma transição organizada. Mas a Rússia está pouco a pouco se recuperando”, afirmou Garcia, à Agência Brasil.

No entanto, concluída a conversão à economia de mercado, cidadãos dos antigos países socialistas passaram a conviver com facetas do novo sistema que desconheciam. Aparaceram mendicância, abandono de crianças e idosos, prostituição maciça, contrabando, tráfico e corrupção em larga escala.

“O que se viu foram pequenos segmentos sendo extremamente beneficiados e a maior parte da população estagnada ou até regredindo do ponto de vista social”, assinala Arraes. “Formou-se uma elite europeizada, uma classe média alta com acesso a tecnologia. Mas uma parte da população migrou para outros países para escapar da miséria.”

Uma das questões mais complicadas tem sido incorporar a população e os países do Leste Europeu ao restante do continente. A antiga República Democrática Alemã (RDA) ainda pesa no bolso dos contribuintes alemães. “A reunificação das Alemanhas foi muito festejada. Mas a maioria da população não percebeu o tamanho do desafio econômico”, diz o diplomata Holger Klitzing, que trabalha na Embaixada da Alemanha em Brasília.

Arraes, da UnB, avalia que a União Europeia não terá condições de ajudar os países do Leste, como fez com a Espanha, Portugal e a Grécia. Para ele, o nível de vida na Polônia, na antiga Checoslováquia (hoje dividida em dois países) e na Hungria é melhor, uma vez que possuíam setores industriais mais avançados do que a ex-União Soviética.

“A competição ideológica possibilitou a consolidação de um sistema social muito forte na Europa. Com a queda do Muro, isso desaparece”, afirma Arraes. “Direitos sociais passaram a ser vistos como privilégios. A ausência de opções políticas e econômicas viáveis faz com que não haja uma tentativa de se amenizar os efeitos mais deletérios do neoliberalismo.”

*Com informações da Agência Brasil


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