Quando a anestesia não funciona! | Por Roque do Carmo Amorim Neto

Era quarta-feira, já passava da meia-noite, eu escovava meus dentes com certa moleza, e uma vontade imensa de me jogar debaixo das cobertas para algumas horas de descanso. De repente, senti um pequeno objeto áspero em minha língua… Segundos depois, vi um pedaço de minha obturação indo literalmente pelo ralo.

Na manhã seguinte, apesar do frio cruel, fui logo cedo ver a dentista. Com um simpático sorriso, ela pediu que abrisse a boca e começou o serviço de restauração. Primeiro, claro, a anestesia. Ela colocou a anestesia com gel para então poder aplicar a injetável. Ela me deixou sozinho na sala por alguns minutos… Pela janela eu observava os primeiros raios de sol que venciam a névoa matinal.

A simpática dentista voltou e aplicou a anestesia. Minutos depois ouvi o barulhinho da broca e senti dor… Levantei a mão pedindo que ela parasse. Ela considerou estranho que eu ainda estivesse sentindo dor e resolveu aplicar mais uma dose de anestesia. Enquanto esperava o efeito da segunda dose, vi o sol triunfar, dissipando a névoa e oferecendo uma agradável sensação de calor.

Minutos depois, mais uma vez lá estava eu com a boca aberta, e a mão erguida indicando para a dentista que a dor, apesar de não tão intensa, persistia. A anestesia não estava funcionando.

Com o costumeiro pragmatismo americano, a dentista olhou nos meus olhos e disse: “Precisamos encerrar isto aqui. Falta pouco! Posso continuar mesmo sem o efeito da anestesia?”. Olhei para o relógio na parede e considerei o fato de já ter passado mais de quarenta minutos ali. “Sim, pode continuar!”, foi a minha resposta. Ela me deu uma almofada para eu apertar e finalizou o trabalho.

De volta para casa, recebi a boa notícia de que não teria aula. E isto foi a melhor coisa que poderia me acontecer aquele dia, pois não tinha condições físicas de suportar três horas de matemática em inglês. Tempo para mais um cochilo… O sono não veio… Aí comecei a pensar no que havia me acontecido como uma metáfora.

Algumas vezes para as dores psicológicas do cotidiano desejamos desesperadamente uma anestesia forte e eficaz. Alguns correm ansiosos para baladas logo depois que acabam um namoro; outros, em momentos de irritação, ainda preferem ligar o som em um volume consideravelmente irritante; também tem quem queira arriscar-se no uso de drogas, desde calmantes até drogas excitantes.

Eu também busco minhas anestesias… Geralmente a minha preferida é o trabalho. Algumas vezes sou capaz de trabalhar compulsivamente por horas a fio, especialmente quando quero desviar minha atenção de algum sofrimento. Mas chega o dia em que a anestesia não funciona. Alguns fatos são tão dolorosos que mesmo a mais forte das anestesias não consegue nos distrair.

Recentemente minha mãe esteve hospitalizada em uma situação muito delicada. Devido à distância em que me encontro dela e por não poder fazer nada por ela daqui, tentei a todo custo me manter focado no meu trabalho acadêmico. Algo que é relativamente fácil para mim. Contudo, não consegui… Naqueles dias me distraia facilmente. Até que finalmente não consegui mais segurar e chorei feito uma criança. Deixei a dor doer!

A preocupação com o estado de minha mãe não foi embora com minhas lágrimas, mas o que em minha mente parecia fora de controle, aos poucos foi se transformando em algo possível de manejar. Às vezes, o melhor remédio contra a dor é dar atenção a ela e deixá-la cumprir sua função.

Não recomendo para ninguém tratamento dentário sem anestesia. Aliás, esta foi apenas uma estranha exceção em minha vida. Entretanto, o que realmente recomendo é o enfrentamento das dores, especialmente daquelas dores do coração causadas por dificuldades em relacionamentos e toda sorte de situação perturbadora que temos que encarar todo santo dia.

Deixe a dor doer… Contudo, tire alguma vantagem dela. Aprenda alguma boa lição!


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