Que é o tempo?

O ego não é possível no tempo mítico, na dimensão do eterno.

O ego não é possível no tempo mítico, na dimensão do eterno.

Tempo tempo tempo…

Foto: visu-al-chaer…
Que é o tempo? A origem da palavra é pouco conhecida. Sabe-se apenas que provém do latim: tempus. Na mitologia grega, Cronos, o deus do tempo, é aquele que tudo regula e tudo comanda. A ele cabia criar uma nova ordem nos ares e nas coisas; revolucionar constantemente a natureza, alterando o palco da vida. Cronos ficou famoso por devorar os seus próprios filhos, e isto simboliza o pensamento de que o tempo destrói o que ele mesmo cria.
Nos cultos afrobrasileiros o tempo é tão importante que foi deificado. É um orixá, designado pelos nomes de Irôco; Loko ou Katendê. O elemento da natureza que o representa é um pé de gameleira branca, e esse orixá tem domínio sobre o tempo. O tempo é aí considerado a permanência dentro da impermanência e a impermanência na permanência. O ciclo vital, que não muda com o transcorrer da eternidade. A infinita e generosa oferta que a natureza nos faz, desde que se saiba reverenciá-la e louvá-la.

Iroko é a essência da vida reprodutiva. Do poder da terra. Alguns mitos dizem que Iroko é o cajado de Odudua (a Terra) que através dele ensina aos homens o sentido da vida.

Assim, nos cultos afrobrasileiros o tempo é compreendido a partir de uma perspectiva ontológica, metafísica, na forma de uma divindade, que vale a sua invocação. E no transe místico dos “cavalos” de Loko ou Katendê, ocorre uma mudança qualitativa do tempo, o tempo ontológico que exclui simbolicamente o tempo histórico.

O tempo histórico representa a manifestação temporal de dimensão do ego. O ego está preso a datas, nasce e morre dentro da história; no entanto, a espécie humana, esta é perene. Dessa forma o ego não é possível no tempo mítico, na dimensão do eterno, segundo o que fica estabelecido pela convenção do ludus religiosus.

Sabe-se que a mais primitiva influência do tempo na vida humana foi o ciclo de dias e noites. Através dele, o homem das cavernas pôde começar a distinguir eventos frequentes, como as chuvas, de eventos raros, como os eclipses.

Usando a medida do tempo – os dias e as noites –, o homem pôde saber qual era a época adequada para as colheitas, prever a cheia dos rios e as mudanças do clima.

Observando a aparência da Lua, podia escolher o melhor momento para o plantio ou avaliar a fertilidade das mulheres.

Os astros, aliás, têm servido como referência para o homem desde os primórdios da humanidade, tanto espacial – para orientação e direção – como temporalmente, permitindo que eles marquem o tempo através da observação de alguma estrela.

Os filósofos, entretanto, foram os primeiros a refletir sobre as causas e origens do tempo. Aristóteles filósofo grego do século III a.C., considerava-o como sendo “a medida dos movimentos segundo a razão”, ou a noção de “antes e depois”.

Há pelo menos duas palavras para o tempo, “cronos e kairos”. Cronos é a hora do nosso relógio, mas kairos é a palavra que o Divino Senhor Deus usa e que significa um momento especial de oportunidade divina: “Não veio ainda o tempo, o tempo de se edificar a casa do Senhor”. A esperança divina, enunciada na Bíblia Sagrada, muitas vezes adiada porque o povo vive na “maya”, em completa ilusão.

O culto a Cronos sobreviveu apenas como mitologia. Vivo e praticado, com tal grandeza e complexidade religiosa, só encontramos o culto ao tempo, nos dias de hoje, entre as religiões afrobrasileiras e nas doutrinas esotéricas.

“Chamo o tempo, eu chamo o tempo/Para ele vir me ensinar…”

Ouçam: “Oração ao Tempo”. Caetano Veloso


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