Para potências ocidentais, acordo mediado por Brasil e Turquia é estratégia de Teerã

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Lula considera o acordo sobre o programa nuclear iraniano uma vitória do diálogo. Já para analistas, o documento assinado em Teerã deixa perguntas por responder e pode não passar de estratégia para fugir de sanções

Foram dois dias de negociações até o Irã concordar em exportar a maior parte de seu urânio pouco enriquecido para a Turquia em troca de combustível nuclear para um reator de pesquisas. Segundo o Itamaraty, a negociação foi dura e centrada em dois pontos: garantir o direito do Irã de utilizar urânio enriquecido para fins pacíficos e dar segurança para a comunidade internacional de que o projeto iraniano é, de fato, exclusivamente pacífico.

“Depois de muita negociação, conseguiu-se chegar a um texto que garantiu tanto os direitos do Irã quanto os da comunidade internacional. Esse acordo é importante para o Brasil porque mostra que acreditamos sempre na possibilidade de diálogo e na busca da paz”, disse a assessoria de imprensa do Itamaraty à Deutsche Welle.

Pelo acordo, o Irã concorda em enviar 1,2 tonelada de urânio pouco enriquecido para a Turquia dentro de um mês, em troca de 120 quilos de combustível nuclear a serem entregues por Estados Unidos, França e Rússia em “não mais do que um ano”, segundo consta no acordo.

Luiz Inácio Lula da Silva comemorou o resultado. “A diplomacia venceu hoje. E mostrou que é possível construir paz e desenvolvimento com diálogo”, disse o presidente brasileiro.

O ministro do Exterior da Turquia, Ahmed Davutoglu, disse que “não há necessidade” para mais sanções das Nações Unidas, já que Turquia e Brasil “deram garantias, e o urânio pouco enriquecido vai permanecer na Turquia”.

Potências ocidentais mantêm-se céticas

Fora Brasil, Turquia e Irã, não se veem comemorações, mas sim desconfiança. Mesmo depois de assinar o acordo, Teerã insistiu em continuar com o enriquecimento de urânio, o que, para o Ocidente, esconde um programa secreto de armamento nuclear. Teerã causou preocupação internacional em fevereiro, ao aumentar para 20% o nível de enriquecimento de urânio para produzir combustível para seu reator, o que seria suficiente para produzir uma bomba, conjectura-se.

Os diplomatas ocidentais ligados à Agência Internacional de Energia Nuclear, que vêm sondando o programa nuclear iraniano há anos, disseram que o acordo não evita sanções adicionais devido à recusa de Teerã de suspender o enriquecimento de urânio.

A alta representante da União Europeia (UE) para Relações Exteriores, Catherine Ashton, disse que, embora o acordo seja bem-vindo, ele “não resolve um problema fundamental, que é o fato de a comunidade internacional ter sérias preocupações sobre as intenções pacíficas do programa nuclear iraniano”. Também o presidente do Conselho Europeu, Herman van Rompuy, reagiu com ceticismo. “Sempre tivemos muitas preocupações com o programa nuclear iraniano. O Irã sempre se recusou a manter um debate sério sobre o seu programa” disse nesta segunda-feira em Madri.

Para Israel, Irã manipulou Brasil e Turquia

O governo israelense acusou o Irã de querer ganhar tempo. “Os iranianos manipularam o Brasil e a Turquia. Eles já fizeram isso antes, fingem que aceitam um acordo para aliviar a tensão e reduzir o risco do endurecimento de sanções internacionais, e depois se recusam a cumpri-lo”, disse um alto oficial de Israel, que não quis se identificar.

“Israel tem o direito de dizer o que quer, mas é a primeira vez que o Irã aceita mandar seu combustível nuclear para outro país”, afirmou um conselheiro do presidente Lula, em resposta às acusações.

Rússia reconhece trabalho diplomático

Moscou saudou o novo acordo, mas negociações adicionais ainda seriam necessárias, declarou o presidente Dimitri Medvedev nesta segunda-feira. “O que foi feito por nossos colegas deve ser celebrado. Essa é a política de solução diplomática para o problema do Irã. Agora precisamos nos aconselhar com todas as partes, inclusive o Irã, para determinar qual será o próximo passo”, acrescentou o presidente russo.

Segundo o pesquisador Vladimir Evseev, do Instituto para Economia Mundial e Relações Internacionais, de Moscou, o acordo teria sido um avanço se não tivesse deixado tantos pontos em aberto. “Até agora não ficou claro sobre que quantidade de Urânio e de combustível estamos falando. E também não se sabe até quando o acordo vai valer. Porque se for só por um ano, isso significa apenas protelar o programa nuclear iraniano por um ano”, questiona. Para Evseev, enquanto o urânio iraniano não desembarcar na Turquia, o Ocidente vai continuar encarando o acordo como uma tentativa de Teerã de ganhar tempo e evitar novas sanções da ONU.


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