Dia do Caixeiro na Praia de Itapuã | Por Juarez Duarte Bomfim

Comemora-se hoje, em Salvador, o Dia do Caixeiro (Dia do Comerciário). Data significativa de lembranças da minha infância e dos meus familiares.
Comemora-se hoje, em Salvador, o Dia do Caixeiro (Dia do Comerciário). Data significativa de lembranças da minha infância e dos meus familiares.
Comemora-se hoje, em Salvador, o Dia do Caixeiro (Dia do Comerciário). Data significativa de lembranças da minha infância e dos meus familiares.
Comemora-se hoje, em Salvador, o Dia do Caixeiro (Dia do Comerciário). Data significativa de lembranças da minha infância e dos meus familiares.

Este era o único dia do ano em que não trabalhávamos. Único, dos 365 dias do ano, em que seu Vavá, meu pai, não abria o seu armazém de secos e molhados para servir à humilde clientela do bairro 

Comemora-se hoje, em Salvador, o Dia do Caixeiro (Dia do Comerciário). Data significativa de lembranças da minha infância e dos meus familiares.

Este era o único dia do ano em que não trabalhávamos. Único, dos 365 dias do ano, em que seu Vavá, meu pai, não abria o seu armazém de secos e molhados para servir à humilde clientela do bairro do Uruguai, numa estafante jornada de trabalho que começava às sete da manhã e se encerrava às dez da noite.

Os preparativos para tão especial evento começavam de véspera: o preparo da grande panela de feijoada a ser levada à Praia de Itapuã, destino de entretenimento e lazer da família Duarte Bomfim.

Como sobremesa, cachos de banana prata, a preferida de seu Vavá. Acompanhando a feijoada, farinha de copioba de Nazaré das Farinhas, sua terra natal.

Este era um dia duplamente especial, porque também representava o único dia do ano que íamos à praia. Mesmo residindo a poucos metros da Praia de Santa Cruz (Canta Galo), em Itapagipe.

Neste período, nos 1960, Salvador terminava ali, no Largo das Baianas de Amaralina. Para a frente, na direção Norte, apenas colônias de pescadores e poucas casas de veraneio na Pituba, Boca do Rio e, por fim, Itapuã. Uma estrada precária, à beira-mar, levava a velha Rural Willis até o paraíso que era este bairro praieiro à época.

Puxo pela memória para compreender como cabiam tantos familiares, parentes, caixeiros do armazém e cachorros no limitado espaço do utilitário veículo. Éramos seu Vavá ao volante e dona Dalva, nossa mãe; vó Sinhá, cinco filhos pequenos: Dinho, Paulo, Lena, este que vos escreve e Mário; quatro tias e uma aderente: Dilce, Dilza, Dinalva, Diene e Altamira; os dois ou três caixeiros propriamente ditos, que trabalhavam conosco e os cães vira-latas Rinti e Boto.

Ah e não esquecer da panela de feijoada, os cachos de banana e as inúmeras sacolas com roupas e outros utensílios.

Não estou contando os convidados eventuais, que todo ano apareciam: os meninos e meninas vizinhos de bairro e amigos da Igreja Batista dos Mares.

Bem, nosso tio Otávio costumava aderir ao passeio, com o seu automóvel, e os convivas eram distribuídos entre os dois veículos. Mas persiste o enigma, o carro já vinha praticamente cheio: eram ele — tio Tal — sua esposa e dois filhos.

Como seria um dia passado à beira-mar, eu abandonava os óculos de míope em casa e o mundo se tornava todo embotado. Talvez por isso até hoje o mar da Bahia se assemelhe — para mim — a uma marinha de Pancetti.

Não existia ainda esses eficazes bloqueadores solar dos dias de hoje. As noites seguintes a esta epopeia praieira eu não conseguia dormir, com a minha pele fritada em brasa dos raios solares — até que uma nova camada cutânea substituísse a velha pele queimada.

Esses eram os únicos momentos da minha infância introvertida e muda que eu era feliz. Passei a associar a ideia de paraíso à beira da praia. O paraíso é a beira-mar.

Recordo de uma surpreendente aventura, num desses passeios, quando um enorme tubarão, em perseguição a um cardume de atum — que se refugiou na arrebentação das ondas — se misturou aos banhistas, aflitos com a inusitada visita.

Do Dia do Caixeiro na Praia de Itapuã ficaram as lembranças, que eu, os irmãos e as tias algumas vezes ao ano compartilhamos, com carinho e saudade, daquele tempo já distante, porém vivo nos corações e nas mentes de quem o viveu: o Dia do Caixeiro com feijoada, banana prata, cachorro vira-lata e tudo, em Itapuã.

*Por Juarez Duarte Bomfim


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Facebook
Threads
WhatsApp
Twitter
LinkedIn

Deixe um comentário

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading

Privacidade e Cookies: O Jornal Grande Bahia usa cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com o uso deles. Para saber mais, inclusive sobre como controlar os cookies, consulte: Política de Cookies.