Vida e obra de Tranquilino Bastos são resgatadas com edital do IPAC

Lyra Ceciliana, que é bi-campeã do Festival de Filarmônicas do Centro Cultural Dannemann, em São Félix.
Lyra Ceciliana, que é bi-campeã do Festival de Filarmônicas do Centro Cultural Dannemann, em São Félix.

Afrodescendente abolicionista, músico premiado na Europa, excelente clarinetista, maestro e compositor, o baiano Manoel Tranquilino Bastos (1850-1935), nascido na região do Recôncavo, terá parte da sua memória resgatada através do livro “O Semeador de Orquestras – Histórias de um Maestro Abolicionista”, a ser lançado até final do primeiro semestre de 2011.

A iniciativa é da Sociedade Euterpe Lyra Ceciliana, filarmônica da cidade de Cachoeira fundada por Tranquilino em 1870. O livro será viabilizado graças aos Editais 2010 do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), da secretaria estadual de Cultura (SecultBA).

A ação integra a política de editais do IPAC que investe com apoio financeiro projetos de valorização do Patrimônio Cultural na Bahia, sejam eles bens culturais materiais ou imateriais. A casa do maestro Tranquilino e o seu acervo musical já têm tombamento do Estado, através do IPAC, desde 1989. O livro vem complementar a salvaguarda estadual difundindo e divulgando o trabalho do maestro.

Através dos editais, o IPAC estimula a sociedade civil a participar com propostas para a salvaguarda dos bens culturais. Entre 2008 e 2010 foram aprovados 24 projetos, totalizando mais de R$ 2,2 milhões investidos. Os editais são complementados com obras de restauração coordenadas pelo IPAC que em Cachoeira e São Félix já somam mais de R$ 37 milhões. As duas cidades ficam nas margens do Rio Paraguaçu e são tombadas como monumentos do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) do Ministério da Cultura.

PERSONAGEM

Para a produção do livro estão sendo pesquisados artigos de jornais dos séculos 19 e 20, textos de autoria do maestro e realizadas entrevistas com estudiosos. Segundo o presidente da Sociedade Euterpe Lyra Ceciliana, Raimundo Cerqueira, o edital do IPAC mostra a importância que o governo estadual tem com as manifestações culturais regionais. “Mostra-se, com isso, ação efetiva para a difusão das filarmônicas”, diz Cerqueira. A seu ver, o livro ajudará na divulgação da história de Tranquilino e da Lyra Ceciliana, que é bi-campeã do Festival de Filarmônicas do Centro Cultural Dannemann, em São Félix.

“Lamentavelmente é raro encontrar publicações e biografias de regentes e compositores do Recôncavo, e esse livro diminui essa lacuna”, completa. A renda da venda posterior do livro será revertida para a filarmônica, que aos 141 anos continua ativa, sendo a segunda mais antiga da Bahia.

A bisneta de Tranquilino Bastos, Ana Ramos, mora em Salvador e espera com ansiedade o lançamento da publicação. “O livro será belo e inédito, já que ninguém teve a idéia antes”, diz Ana. Para a bisneta, Tranquilino deixou muitas contribuições para outras gerações e o livro vai ajudar a divulgar isso. “Apesar da fama, meu bisavô morreu pobre, pois ajudava as pessoas necessitadas e nunca juntou dinheiro”, finaliza Ana Ramos.

BIOGRAFIA – Além de músico, compositor, maestro, regente e professor de música, Tranquilino Bastos, também atuou como jornalista e deixou vasto acervo de partituras musicais que foi adquirido pelo Governo do Estado da Bahia e se encontra no Setor de Obras Raras da Biblioteca Central, tendo sido usado como tema de diversas pesquisas e até teses de doutorado.

Sua personalidade o fez ganhar fama internacional, tanto pelas suas escolhas pessoais, como abolicionista, espírita, vegetariano e praticante da homeopatia – com a qual praticava caridade – como pela estética de seus trabalhos. Em 1920, com sua música Passo Dobrado Nº 140 tocada no exterior, a Casa Sax envia de Paris uma batuta de prata e um diapasão como presente pela consideração à obra.

Sua carreira musical deixou como frutos 295 dobrados, 150 marchas festivas, 50 marchas fúnebres, 205 fragmentos de ópera, 24 composições sacras, 80 composições diversas como valsas, polacas e contradanças, além de nove fantasias e variações, cinco árias para canto e três hinos patrióticos.

Ficou marcada na história de Cachoeira a passeata musical conduzida por ele em 13 de maio de 1888 que reuniu milhares de pessoas, em sua maioria negros recém libertos, em comemoração a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel.

Tranquilino viveu, participou e contribuiu com uma época em que os sons do Recôncavo apareciam muito através da oralidade e dos registros da memória com fusão entre os ritmos afro-brasileiros e a teoria tradicional secular européia da música, criando uma sonoridade plural e multiétnica.


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