Wikileaks coloca jornalistas diante de dilema complicado | Por Carlos Castilho

A mais recente leva de documentos secretos divulgados pelo site Wikileaks acabou respingando também no Brasil, com as revelações que colocaram o ministro da Defesa, Nelson Jobim, numa tremenda saia justa. Mas nosso envolvimento não passa de fofocas envolvendo egos e ciúmes entre ministros do governo Lula.

Muito mais importante é o debate que está ganhando força e que já colocou a imprensa mundial diante de um dilema bem complicado. Ou ela pega a deixa do Wikileaks e passa a investigar a autenticidade e os detalhes dos documentos publicados, ou vai se acomodar tornando-se cúmplice de uma eventual ação de governos impondo a censura ao site criado pelo australiano Julian Assange.

Enquanto os governos buscam formulas legais para acabar com a sequência de documentos secretos trazidos à luz do dia pelo Wikileaks, entre os jornalistas surge um debate que, embora ainda encabulado, já começa a provocar uma aguda divisão em campos opostos.

A maioria dos jornais e dos jornalistas não está discutindo a autenticidade ou as conseqüências dos documentos revelados, mas sim as motivações de Assange. Se é um ególatra em busca de fama, se é um terrorista disfarçado de ativista social, se é um estuprador, e por aí vai.

Os norte-americanos Robert Niles, do Instituto Poynter, e Jay Rosen, na Universidade Municipal de Nova York, ambos professores de jornalismo, defendem a tese de que o Wikileaks pode ter lá seus motivos ocultos, mas uma coisa é real: o site fez aquilo que a imprensa mundial deveria ter feito para expor à luz pública o que corre pelos bastidores da política mundial e que o cidadão comum nunca toma conhecimento.

O fenômeno Wikileaks está dividindo os jornalistas em duas correntes, segundo Niles. De um lado estão os que defendem a tese de que a informação deve chegar até o publico, não importa os meios e formas, para que o cidadão possa exercer o seu direito de decidir sobre os rumos do país; e do outro, os profissionais que desejam controlar o fluxo da informação para manter os seus empregos.

Há também os que acreditam como Jay Rosen, que “se a imprensa realmente patrulhasse os governos, políticos e empresários, a existência do site Wikileaks se tornaria desnecessária”. Talvez esteja aí a chave para recolocar o debate sobre o vazamento de documento secretos no seu verdadeiro contexto.

Outro elemento importante para entender a polêmica é a leitura de um texto de Julian Assange, publicado pelo blog Zunguzungu, no qual o criador do Wikileaks diz que se inspira nas idéias do presidente norte-americano Theodor Roosevelt sobre a necessidade da transparência universal e prega uma “conspiração de computacional para acabar com o governo invisível“ globalizado.

Na sexta-feira (03/12/2010), começou uma guerrilha cibernética em torno da hospedagem do Wikileaks. O site perdeu seu endereço nos Estados Unidos, porque foi retirado do ar pela empresa que o hospedava, e a partir daí teve que migrar sucessivamente para a Suíça, Alemanha, Finlândia e Dinamarca. Tanto o site como Assange estão a um passo se transformarem em párias mundiais no meio da polêmica sobre liberdade dos fluxos informativos.

*Por Carlos Castilho.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading