O papel do jornal, o tempo como co-autor | Por Alberto Dines

Reproduzido da Revista da Cultura (Livraria Cultura, SP), fevereiro de 2010; sobre O papel do jornal, de A.D., 191 pp., 9ª edição revista, atualizada e ampliada, Summus Editorial, São Paulo, 2009.

O objetivo de qualquer texto é chegar ao ponto final. A única narradora sem pressa para terminar a sua história deve ter sido a princesa Scheerazade, obrigada a entreter indefinidamente o seu senhor. Acontece que o ponto final nem sempre é definitivo. No gênero biográfico as conclusões são, geralmente, transitórias: impossível determinar em que momento completou-se o relato. Novo e insignificante detalhe poderá exigir inesperada complementação.

Também no gênero jornalístico evidencia-se a relatividade do ponto final: a notícia de hoje tem princípio, meio e fim e, não obstante, amanhã estará certamente superada. O mesmo acontece em trabalhos científicos onde a incessante busca do conhecimento torna insuficiente qualquer finalização.

Quando em 1974 lancei O Papel do Jornal pela antiga Editora Artenova (Rio) imaginei uma carreira editorial com duas, no máximo três impressões. Hoje, 35 anos depois, já em meio à 9ª edição revista e consideravelmente ampliada, percebo que o ponto final é imponderável.

A partir da 4ª, já na Editora Summus (São Paulo), comecei sentir a necessidade de atualizar um livro que originalmente destinava-se a descrever determinadas circunstâncias (o aumento brutal do preço do papel de imprensa e o colossal desenvolvimento do telejornalismo). E assim o livro ganhou um inesperado e exigente co-autor – o tempo – que impôs outro formato: a construção em camadas.

Força vital

Nos anos 90 do século passado, em meio às drásticas mudanças no ferramental jornalístico e na própria natureza da imprensa, sugeri ao publisher Raul Wasserman que encerrasse a carreira do livro. Duas décadas eram suficientes para um livro circunstancial. A resposta do editor (engenheiro de profissão) foi breve: “Quem decide o fim de um livro não é o autor, nem o editor. Enquanto houver gente interessada em comprar uma obra é nossa obrigação mantê-la no catálogo”. Acrescentava-se ao livro novo parceiro – o leitor – e o ponto final condenava-se definitivamente à irrelevância.

A façanha não é minha, é do personagem/assunto: a imprensa. Em seus 400 anos de vida, o jornalismo já foi condenado à morte pelo menos quatro vezes quando apareceram formatos e tecnologias rivais: o rádio, o cinema, a TV e agora as tecnologias digitais (excluídas as ferramentas como o telegrafo e o código Morse rapidamente incorporadas à imprensa).

O jornal, porém, é muito mais do que um papel impresso, é uma elaborada função social. O jornalista é muito mais do que um escriba, é um provedor de conexões, agente social: junta o indivíduo ao coletivo, governantes e governados, o ontem com o hoje e força a curiosidade pelo amanhã.

Nenhuma destas tecnologias/formatos foi suficientemente hegemônica para impor-se às demais. A busca do conhecimento é um vetor dotado de uma tremenda força vital que força todos os competidores a buscar a convergência. Nos anos 1920 e 30, quando o rádio exibiu o seu potencial mobilizador, decretou-se o fim do jornalismo impresso, sobreviveriam apenas as revistas coloridas. Não aconteceu.

Jornalista profissional

Em 1974, quando as cassandras anunciavam a vitória definitiva da TV sobre o jornalismo, os vaticínios também não se confirmaram. Dificilmente serão confirmados os augúrios apocalípticos sobre o fim do jornalismo impresso, destroçado pelo twitter que será transmitido por celulares de pulso com monitor de TV.

Por quê? Porque a disputa tem sido sempre ganha pelo formato que oferece um produto informativo mais completo, mais apto a sobreviver (como preconiza Darwin). O jorro informativo contínuo, próprio dos meios digitais, estará sempre em desvantagem diante de produtos informativos periódicos, capazes de consolidar o turbilhão de novidades.

Aí entra o jornalista profissional, o desfragmentador, especialista em amarrações. Sem jornalistas não existe jornal nem jornalismo. Razão pela qual o co-autor – o tempo –, além de desconsiderar o ponto final, também obrigou-me a rever o título original: O Papel do Jornal agora é O Papel do Jornal e a profissão de jornalista.

*Por Alberto Dines


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