Kadafi diz que não deixará a Líbia e desafia opositores

Em discurso transmitido pela televisão, ditador afirma que prefere morrer como um mártir a abandonar o poder. Oposicionistas dizem ter controle da maior parte do país. Conselho de Segurança reúne-se para debater a crise.

Num discurso histérico e aparentemente improvisado na televisão estatal, o ditador da Líbia, Muammar Kadafi, afirmou nesta terça-feira (22/02/2011) que não deixará o poder e prefere morrer como um mártir na terra de seus ancestrais.

“Muammar Kadafi é o líder de uma revolução; Muammar Kadafi não tem um posto oficial ao qual possa renunciar. Ele é o líder eterno da revolução”, disse o ditador de 68 anos. “Este é meu país”, afirmou, com o punho cerrado e erguido.

O discurso foi feito na entrada de um prédio em ruínas, aparentemente a antiga residência do ditador em Trípoli, que foi bombardeada pela força aérea norte-americana nos anos 1980 e cujos destroços foram abandonados propositalmente, uma espécie de símbolo da provocação.

Kadafi disse que continuará lutando e desafiou seus opositores, que qualificou de traidores da pátria e terroristas. “Ainda não fizemos uso da força, mas, se for necessário, faremos”, disse, em tom de ameaça.

Poder ameaçado

O discurso ocorre num momento em que o ditador perde apoio entre diplomatas e a pressão internacional sobre ele aumenta. Diversos embaixadores líbios no exterior deixaram de apoiá-lo. Nesta terça-feira, foi a vez do representante do país nos Estados Unidos, Ali Audschali, pleitear a renúncia do ditador em frente às câmeras da emissora norte-americana de televisão ABC.

Há também relatos de deserções entre os militares. Em vários pontos do país unidades das Forças Armadas e das forças de segurança, consta que há soldados passando para o lado dos opositores, afirmam diplomatas do alto escalão.

Oposicionistas disseram ter praticamente toda a Líbia sob controle depois de uma semana de protestos e centenas de mortos. Várias cidades do leste do país, entre elas Bengasi, segunda maior cidade líbia e foco de origem dos protestos, estariam sob o controle dos rebeldes. A fronteira da Líbia com o Egito também está nas mãos de oposicionistas, armados com metralhadoras Kalashnikov.

Em Bengasi, unidades inteiras do Exército desertaram e uniram-se aos manifestantes, informa a francesa Federação Internacional de Direitos Humanos. Pelos cálculos dessa organização humanitária, pelo menos 400 pessoas já morreram durante os protestos na Líbia. Segundo a Human Rights Watch, só em Trípoli os confrontos deixaram um mínimo de 62 mortos.

Pressão internacional

O Conselho de Segurança das Nações Unidas reúne-se em caráter de emergência nesta terça-feira para debater a situação no país árabe. A reunião foi convocada por Alemanha, França e Reino Unido.

A comissária de Direitos Humanos das Nações Unidas, Navy Pillay, exigiu uma investigação internacional das brutais ações das forças de segurança líbias, acusadas por oposicionistas de abrir fogo contra os manifestantes, seguindo ordens do governo. Segundo Pillay, isso caracteriza crime contra a humanidade.

A secretária de Estado Hillary Clinton exigiu o fim imediato do “derramamento de sangue” na Líbia. O ministro alemão do Exterior, Guido Westerwelle, defendeu o fim da repressão: “Se a Líbia continuar a usar a violência contra o próprio povo, as sanções serão inevitáveis”, disse o ministro. Na União Europeia, Itália e Malta são contra sanções ao ditador por temerem um fluxo de refugiados caso Kadafi seja deposto.


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