Especialistas avaliam que autorregulação de jornais proposta pela ANJ é inciativa louvável, mas defendem participação de outros setores

Pesquisadores e professores de comunicação consideram positiva a iniciativa da Associação Nacional dos Jornais (ANJ) de instituir um programa de autorregulação para os jornais, anunciada ontem (26) pela entidade. Eles ponderam, no entanto, que a medida é insuficiente no sentido de garantir maior qualidade à informação.

Para Rogério Christofoletti, professor de jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a autorregulação é “positiva”, mas não dispensa que outros setores como os próprios jornalistas, a academia e os movimentos sociais também “apontem parâmetros” para a cobertura da imprensa.

Na opinião do professor, a resistência das empresas jornalísticas a essa participação corresponde a uma “visão obtusa” do tipo de negócio e produto que fornecem à sociedade. “Embora sejam empresas privadas, os serviços são de natureza pública, transcendem os muros das empresas jornalísticas. [Os jornais] interferem na formação do imaginário e na percepção da realidade”, disse.

Na avaliação da professora Márcia Marques, da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (FAC/UnB), a iniciativa da ANJ é “louvável” e “quanto mais plural e com mais participação, melhor”. Para ela, o gesto da associação é “uma tentativa de resolver o vazio que se criou com o fim da exigência do diploma para a carreira de jornalista”.

A acadêmica ressalta porém, que, na proposta da ANJ, “não é a sociedade que está inserida no controle”. Segundo ela, foi formado “um embate ideológico” em torno da discussão; e que, por causa da ditadura militar (1964-1985), sempre há o “medo” de que qualquer forma de controle seja “censura”. Além disso, “as empresas entendem que [controle social] seja uma interferência em seu negócio:a liberdade de imprensa tida como a liberdade de imprimir”.

“A autorregulação é válida, contribui para os princípios deontológicos [éticos] do jornalismo”, elogia Fernando Oliveira Paulino, também professor da FAC/UnB e ouvidor adjunto da Empresa Brasil de Comunicação(EBC). Ele, todavia, destaca que “resta a dúvida se os jornais vão seguir ou não”, diz antes de ressaltar que a ANJ, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) seguem códigos de éticas diferentes.

Paulino também lembra que na década de 1970 a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) contabilizou que 70 países já adotavam alguma forma de regulamentação (Relatório Mac Bright).

No começo deste ano, a Unesco publicou no Brasil um estudos sobre a autorregulação da mídia e liberdade de expressão. Para o coordenador de Comunicação e Informação da Unesco, Guilherme Canela Godoi, a autorregulação proposta pela ANJ é “salutar” e “adequada”.

Durante o governo Lula (2003-2010), as empresas de comunicação tiveram vários embate com o governo por causa da possibilidade do governo em acolher propostas de “controle social da mídia”. O último episódio foi no começo do ano passado por causa terceira edição do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3), que acabou sendo modificado.

*Com informação: Agência Brasil


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