Publicar ou não publicar as fotos | Por Alberto Dines

A mídia mundial transformou-se na quinta-feira, dia 5 de maio de 2011, num gigantesco Observatório da Imprensa: junto com os fatos está discutindo como tratá-los. Publicar ou não publicar, eis a questão.

O dilema ficou mais nítido nas últimas horas de quarta-feira, quando os portais de internet dos grandes veículos de comunicação do mundo receberam da Reuters as fotos dos três acompanhantes de Osama bin Laden mortos junto com ele em Abbottabad e obtidas por intermédio da generosa polícia paquistanesa.

O portal do Estadão preferiu não chocar os seus leitores e leitoras: vetou a reprodução das horrorosas imagens. Já os portais da Folha, El País e The Guardian compreenderam que era seu dever publicá-las. Não porque sejam adequadas – certamente não são – mas como uma tomada de posição antecipada diante da decisão da Casa Branca de não mostrar o crânio esfacelado do inimigo público nº 1, o ex-comandante da Al-Qaida.

Vítima potencial

Convém lembrar que este debate sobre a divulgação de imagens chocantes ficou agudo a partir do momento em que o terrorismo tornou-se cotidiano. Os terroristas precisam do apoio da mídia para intimidar e apavorar. Nos dias seguintes ao 11 de setembro de 2001, o grosso da mídia americana evitou a exposição de corpos despedaçados para não aumentar o desespero da nação e foi acusada – sobretudo por setores da esquerda – de promover a autocensura.

O mesmo debate aconteceu em seguida aos atentados de 11 de março de 2004, em Madri, com um complemento: o governo de José Maria Aznar pretendia enganar o eleitorado acusando os terroristas bascos de serem os responsáveis pelo massacre. Estava errado: a mídia independente provou a responsabilidade dos seguidores de Bin Laden.

Este dilema nos remete a uma questão anterior, aparentemente política, mas na realidade eminentemente midiática: por que razão o governo americano preferiu matar o terrorista Bin Laden ao invés de capturá-lo, julgá-lo publicamente e executá-lo, tal como fez o governo de Israel com o genocida nº 1, Adolf Eichmann, em 11 de maio de 1960, há quase exatos 61 anos?

Por que não fez a Casa Branca o mesmo que fizera com Sadam Hussein, preso num buraco como um rato e depois enforcado pelo governo do Iraque?

Em nenhum dos dois casos a mídia mundial foi complacente ou minimizou as culpas dos monstros. Ao contrário. A cobertura do julgamento de Eichmann em Jerusalém foi decisiva para tirar o Holocausto de um prematuro esquecimento.

A mídia democrática jamais favorecerá o terrorismo porque ela sabe que pode ser sua próxima vítima.

***

O lema do New York Times desde 1896, “All the News that Fit to Print” – todas as notícias adequadas à publicação – transferiu à direção do jornal a responsabilidade de definir o que é próprio ou impróprio para publicação. No passado, esta adequação ficava no âmbito religioso, político, legal ou da moral do momento. A adoção daquele moto pelo jornalão americano no fim do século 19 revela um esforço para profissionalizar critérios, o que nem sempre é possível considerando a diversidade de visões daqueles que comandam o processo decisório na indústria jornalística.

Por Alberto Dines – Observatório da Imprensa.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Dupla de profissionais de saúde sorrindo, vestindo uniformes, com uma cidade ao fundo e texto promocional sobre saúde.
Banner promocional da JADS FOTO, destacando serviços de fotografia e personalização, incluindo contatos e lista de produtos.
Logo da RFI em português, com as letras 'rfi' em vermelho sobre fundo branco e a palavra 'português' em vermelho, abaixo com uma linha horizontal.
Imagem comemorativa de 19 anos do Jornal Grande Bahia, destacando seu compromisso com jornalismo independente e informação precisa.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading