Sócrates e Lula | Por Emiliano José

Emiliano José é jornalista, escritor e suplente de deputado federal (PT-BA).
Emiliano José é jornalista, escritor e suplente de deputado federal (PT-BA).
Emiliano José é jornalista, escritor e suplente de deputado federal (PT-BA).
Emiliano José é jornalista, escritor e suplente de deputado federal (PT-BA).

Os últimos anos, desde que Lula assumiu, em 2003, presenciaram a emergência de fortes preconceitos de uma parcela da sociedade brasileira em relação à participação das maiorias na vida política, o que significava, na verdade, uma desconfiança profunda na própria democracia. Lula, nessa visão, havia sido eleito por uma gentalha que não tinha consciência, e o que é pior, eleito duas vezes. E ele próprio, o presidente, era um homem sem preparo, sem consistência intelectual, incapaz de fazer um bom governo.

Esses preconceitos provinham essencialmente de uma parte da classe média e da burguesia assustadas com a emergência de um operário à presidência da República. Como se atreve? Como pode querer governar o País um sujeito que veio do Nordeste, pobre, das classes trabalhadoras, sem nenhum diploma? Setores da mídia e da intelectualidade foram a vanguarda da tentativa de disseminação desses preconceitos que, em alguns momentos, apareceram de modo quase obsceno pela gratuidade e virulência com que eram acionados.

Não pretendo argumentar, porque desnecessário, sobre o insucesso dos que se dedicaram a esse combate, que não acabou. Lula foi um extraordinário presidente que, para dizer apenas um aspecto, mexeu com a estrutura de classes da sociedade brasileira, possibilitando a ascensão de milhões de brasileiros a uma condição digna de vida. Aqui, quero dizer poucas palavras sobre como essa aversão ao povo, à democracia, à participação política das maiorias, vem de longe. Fui provocado a falar sobre isso ao ler “O julgamento de Sócrates”, de Isidor Feinstein Stone, mais conhecido como I. F. Stone.

O trabalho, como se vê pelo título, dedica-se a entender o significado do julgamento de Sócrates, resultado de um exaustivo trabalho do autor em busca das razões pelas quais uma sociedade como a de Atenas foi levada a condenar o filósofo à morte. E descobriu muita coisa, que não vou detalhar aqui. Apenas cabe dizer que o veredicto dos juízes evidencia um crime contra a liberdade de expressão, como ele destaca. Atenas traiu seus próprios princípios ao condenar Sócrates. Mas, o autor afirma que o filósofo, ao se recusar a pronunciar um elogio inequívoco à democracia ateniense, escolheu o caminho da morte. Disso tudo, no entanto, não vou tratar. Os leitores procurarão o livro, se quiserem ir adiante, e ele merece ser lido, tenham certeza.

O que me impressionou foi descobrir um Sócrates profundamente elitista, que abominava a democracia, que desprezava a gentalha, que não queria o fortalecimento do populacho, que só acreditava no governo “dos que sabem”, e Platão, de uma forma ou de outra, seguirá a mesma trilha, pois é também por Platão que conheceremos Sócrates, sem falar em Xenofonte. Se quisermos, então, esses preconceitos tão arraigados contra o povo, contra a participação das maiorias, vem de longe, tem bases filosóficas antigas. A idéia de que a polis – a cidade – se autogovernava era repudiada por Sócrates e seus discípulos. Que, assim, repudiavam também a política, esta entendida ali como autogoverno. O poder, para Sócrates e seus acólitos, devia ser exercido por “aquele que sabe”.

Claro que os nossos preconceitos vem da carga de uma sociedade que experimentou a escravidão por quase 400 anos, uma sociedade patriarcal, que conheceu o latifúndio, a opressão profunda ao mundo do trabalho na cidade e no campo. Mas, não se pode desprezar essa herança filosófica elitista, que volta e meia vemos reproduzida. Antes, Sócrates dizia que ao sapateiro cabia fazer sapatos, e não governar. Com Lula, se dizia que torneiro devia tornear, e não governar.

Há, hoje, os que abominando a política, imaginam também um governo “dos letrados”, “dos que sabem”, como se fosse essa a questão chave da política, como se o saber governar pudesse ser adquirido na escola. A democracia deve possibilitar a participação de todos na vida política, e infelizmente, no nosso caso, ainda veda a presença de tantos atores necessários, das classes trabalhadoras. O que temos, portanto, é que ampliar o protagonismo dos de baixo, ainda subestimado, e não diminuir.

*Emiliano José é jornalista, escritor e suplente de deputado federal (PT-BA).


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Facebook
Threads
WhatsApp
Twitter
LinkedIn

Deixe um comentário

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading

Privacidade e Cookies: O Jornal Grande Bahia usa cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com o uso deles. Para saber mais, inclusive sobre como controlar os cookies, consulte: Política de Cookies.