Quem é o Brasil? | Por Joaquim Falcão

A pergunta “Quem é o Brasil?” foi muito feita no século passado. Produziu um conjunto de respostas por intérpretes do Brasil, pesquisadores, acadêmicos, sociólogos como Gilberto Freyre, Caio Prado, Sérgio Buarque, Florestan Fernandes, Raymundo Faoro e tantos outros. Hoje a reposta saiu das mãos dos acadêmicos e passou para outras.

A resposta passou primeiro para os censos do IBGE, que faz levantamento dos domicílios de todo o Brasil. É o Brasil estatístico que nos diz a quantidade que somos em raças, sexo, domicílios, profissões, religiões. Quem é o Brasil? responde-se por quantos somos no Brasil.

Segundo, a cada nova eleição, a resposta passou para as pesquisas eleitorais que tentam identificar atitudes, preferências, ideologias, percepções do eleitor. Sabemos então das reações do Brasil diante do poder, do Estado. Quem é o Brasil? responde-se com quem é o eleitor.

Finalmente, a resposta passou também para as pesquisas de marketing, empresas de propaganda e publicidade. Sabemos então dos hábitos de consumo, das relações dos brasileiros com o mercado, que produto prefere e quem os compra. Quem é o Brasil? responde-se com que é o consumidor.

Existem, porém, pequenas mas extraordinariamente relevantes realidades que não são captadas nos censos, nas pesquisas eleitorais ou nas pesquisas de marketing. São cerca de 400 jovens baianos, que responderam a uma chamada, a um anúncio e foram selecionados. Não era para emprego. Nem para vestibular. Nem para estágios. Nem para se candidatarem a viagem à Disney, intercâmbios ou programas de televisão. Os que responderam foram basicamente jovens das classes mais populares. Morenos, embora não somente.

Jovens da elite baiana, parece, não respondem a anúncios, convocações ou chamados. Não se interessaram. Cerca de 70% dos selecionados são jovens protestantes ou vinculados a famílias protestantes. Isso numa Salvador há séculos inundada de igrejas católicas e terreiros de candomblé.

Mas a que esses jovens se candidataram? Para, do nada, na terra de Caymmi, Caetano e axé, construírem uma orquestra sinfônica. Na Bahia de musicalidade popular à flor da pele, de trios elétricos, trocam-se abadás multicoloridos por sóbrios ternos e gravatas escuros e comportados vestidos longos pretos. Nada é incompatível na Bahia.

Uma realidade como essa, de jovens baianos, tocando como tocaram esta semana no Teatro Castro Alves em Salvador a Nona sinfonia, de Beethoven, dificilmente é capturada e entendida por essas pesquisas. Aliás, a Nona, como se diz, é considerada pela Unesco como patrimônio cultural da humanidade. Quando é que o Conselho do Iphan vai também escolher qual música clássica será nosso patrimônio cultural imaterial? Villa Lobos aguarda ansioso.

Os jovens tocaram com teatro cheio. A orquestra integra o programa Neojiba, do governo do estado da Bahia, à frente um maestro também baiano, morador de Lausanne, Ricardo Castro. Visão mais pragmática diria, e pesquisas já confirmam, que investir em educação musical e formação de profissionais de música é caminho mais barato do que a repressão para evitar a droga e a delinquência. Em vez de leis mais punitivas, programas educacionais são mais baratos e eficientes.

Outra visão entende que existem certas instituições que são comuns à cultura do Ocidente e que todos os países têm que ter para dialogarem entre si. Por exemplo: biblioteca nacional, banco central, sindicatos de trabalhadores, museu de belas-artes, orquestras sinfônicas todos têm que ter. E, ao terem, se identificam.

Os jovens do Neojiba aumentam o diálogo do Brasil com os demais países do Ocidente. A nossa participação pode ir muito além de nossa música popular. Nada é excludente. Na mesma noite em que os jovens baianos tocavam Beethoven, Lulu Santos arrasava outras centenas de jovens baianos, quase em frente. A Bahia é como o Brasil: improvável, paradoxal, surpreendente, possível e convivente de seus pluralismos. Somatório antes de eliminatório.

*Joaquim Falcão é professor de direito da Fundação Getulio Vargas (FGV).


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