Quaresma

A Quarta-Feira de Cinzas marca o início da Quaresma. Não só a Igreja Católica celebra o tempo quaresmal. Também a Igreja Luterana, a Igreja Presbiteriana, a Igreja Anglicana e muitas outras Igrejas Cristãs debruçam-se, com reverência, nesta quadra do calendário, à face do mistério do Cristo que foi crucificado e ressuscitou. Algumas Igrejas Cristãs, que guardam a Quaresma, não adotam o ritual da imposição das Cinzas, uma tradição católica que leva milhões de pessoas aos templos, pelo mundo afora, para ouvir a advertência solene: “Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris.”

A Eucaristia, um dos sete sacramentos, foi durante séculos e continua sendo até hoje matéria de divergência doutrinária entre as Igrejas cristãs.

O ponto que gera a discussão resulta do entendimento de que somente o sacerdote católico  poderia presidir à celebração da despedida de Jesus cumprindo seu testamento: “Fazei isto em memória de mim até a consumação dos séculos.”

Não me parece que o tema possa ter interpretação estreita.

Creio que a promessa de Jesus Cristo, na última Ceia, não pode, de forma alguma, encerrar-se nos arraiais da fé católica.

Onde se celebre a Ceia cristã, em memória do Ressuscitado, na Esperança do advento do Reino definitivo e na luta pelo Reino provisório, que deve ser um Reino de Justiça, ali se repete a Ceia do Senhor.

Nestes tempos de Ecumenismo, quando todos os cristãos devem dar as mãos para construir um mundo mais humano, a Eucaristia não pode dividir.  O Cristo pediu a unidade, o Cristo quer a unidade, o Cristo é a unidade.

Para além do domínio cristão, creio que celebram a memória do Crucificado, mesmo sem pronunciar Seu Santo Nome, todos aqueles que lutam pela Verdade, abominam as exclusões e as discriminações, procuram construir a Fraternidade.

Eucaristia e Justiça são inseparáveis.  Comunga o Senhor Jesus quem comunga o Irmão, quem socorre o fraco, quem enfrenta a onipotência do opressor, quem se solidariza com o oprimido.

Jesus Cristo pode estar em toda parte.  Mas o Cristo está sobretudo no meio dos operários, nas favelas, nos hospitais, nas prisões. Ali onde estão os pequeninos, ali está o Cristo Libertador, como anúncio de Esperança, consolo dos aflitos, auxílio dos que sofrem.

O livro do Deuteronômio contém este preceito:

“Buscarás a Justiça, unicamente a Justiça, para que possas viver”.

Buscarás a Justiça e não apenas aprovarás ou aplaudirás a Justiça — este é o conselho do Profeta.

Na segunda parte do texto vem a conclusão:  para que possas viver.

A Justiça é condição de sobrevivência.  Só uma sociedade justa pode sobreviver.

*João Baptista Herkenhoff é magistrado aposentado, Livre-Docente da Universidade Federal do Espírito Santo, conferencista e escritor.


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