Muito curioso que, alguns dias depois da crise que levou milhares de pessoas às agências da Caixa Econômica Federal com medo do fim do programa federal Bolsa Família, o governo anuncie um contingenciamento do Orçamento da União da ordem de R$28 bilhões. Não quero – e não vou – ser leviano, como foram alguns ministros que acusaram a Oposição de iniciar o boato, mas essa situação vale uma reflexão: será que essa boataria não foi um balão de ensaio para o próprio governo ver a reação da população em caso de cortes no Orçamento em áreas sociais, inclusive no Bolsa Família? Não acredito.
Acho que o mais viável foi a boataria ser instalada para esconder um problema bem mais grave, que se verifica com o contingenciamento do Orçamento: a crise financeira que abala o mundo chega às portas do Palácio do Planalto. E, sem alternativas, o governo tem que contingenciar – ou seja, cortar – parte dos investimentos que iria fazer em diversas áreas. Como a boataria foi grande, até com investigação da Polícia Federal, ninguém percebeu o anúncio desse corte de R$28 bilhões.
O mais interessante é que nesse contingenciamento – ou corte de gastos – o governo do PT diz que não vai prejudicar investimentos sociais, mas apenas cortar obras. Mas, quando se corta investimentos em construção de escolas e de universidades federais, de hospitais, estradas, barragens e açudes, habitações populares, entre outras, não é o mesmo que dar um tiro de morte em importantes programas sociais do Governo do PT porque obra parada significa desperdício de dinheiro público e desemprego para os trabalhadores? E se essas obras podem ser contingenciadas, sofrer cortes e esperar Deus dar bom tempo, elas eram verdadeiramente relevantes?
Outra questão: Esse corte em investimentos não mostraria um Orçamento superdimensionado – ou seja, uma fantasia – e que não retrata a realidade financeira do governo do Partido dos Trabalhadores? Se não é isso, o que posso avaliar é que o Brasil está sim, sendo atingido pela crise mundial que afeta mercados europeus e asiáticos, derruba bolsas de valores e chega, infelizmente às gôndolas dos supermercados.
Mas o que me deixa tranquilo é que vivemos nos melhores dos mundos, como diz a propaganda do PT. Não temos que nos preocupar com a crise internacional, com a crise interna, com a volta da inflação, com os constantes aumentos de preços dos alimentos, com o fim do Bolsa Família. Afinal, vivemos no Brasil e tudo isso não passa de um pesadelo. Ou de boato. Uma hora, vamos ter que acordar para a realidade! Ou calar a boataria.
*Heraldo Rocha é ex-deputado estadual e presidente municipal do Partido Democratas de Salvador.









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