
Em 01 de abril de 1964, há exatos 50 anos, foi instalada no Brasil uma ditadura civil-militar. Por meio de um golpe orquestrado pela sempre conservadora burguesia brasileira, sob orientações e financiamento do imperialismo norte-americano, o presidente João Goulart e seu projeto de reformas de base, medidas que atingiriam a estrutura da desigualdade em nosso país, foi derrubado e um regime de exceção foi instaurado. Constituição, leis, democracia foram destruídas, para conformação de um Estado autoritário, subserviente aos interesses norte americanos, repressor e cruel.
O chamado “milagre econômico” – o rápido crescimento e as obras públicas megalomaníacas financiadas pela injeção de dólares – deixou como saldo a maior dívida externa da nossa história, e serviu apenas para deixar mais ricas as empresas transnacionais e os grandes bancos. Enquanto os responsáveis pelo golpe lucravam, a classe trabalhadora brasileira foi duramente perseguida e reprimida, em todas as suas formas de organização, ligas camponesas, sindicatos, setores progressistas das igrejas, movimento estudantil e toda militância da esquerda.
O Estado brasileiro especializou-se no sadismo organizado, criando departamentos e treinando quadros para a função principal de torturar, assassinar, sequestrar, estuprar e violentar toda e qualquer pessoa que ousasse resistir ao regime. Foram centenas de militantes, homens e mulheres, que tiveram seus corpos e suas vidas destruídas nos porões da ditadura, e que permanecem silenciados até hoje pela impunidade de seus algozes.
Essa cultura de autoritarismo, violência e impunidade da ditadura enraizou-se nas estruturas do nosso Estado e no imaginário social, e segue fazendo vítimas nesses 25 anos de democracia. Até hoje, a polícia militar entende que seu trabalho é exterminar e torturar a juventude pobre e negra das nossas periferias. Até hoje, as universidades públicas criadas naquele período mantêm uma estrutura que serve para dividir os estudante e impedir sua organização, como, por exemplo, a Universidade Estadual de Feira de Santana. Até hoje, as vozes da desumanidade erguem-se defendendo o regime, como a de Brilhante Ustra, escrachado em Brasília pelo Levante Popular da Juventude, e outras mais jovens lhes fazem eco. A ditadura é uma ferida aberta não só para os que sofreram perseguições, mas para toda sociedade brasileira. Nossa democracia continuará frágil, enquanto os crimes que o Estado brasileiro cometeu não forem revelados e seus agentes não forem punidos.
Os militares tentaram apagar da memória o povo a sua histórica disposição para a luta e a transformação. A juventude de hoje então toma para si a tarefa de combater incansavelmente os vestígios que eles deixaram em nossas cidades e instituições. Apagaremos seus nomes das escolas, das ruas, das praças; derrubaremos seus vergonhosos bustos de bronze; denunciaremos seus crimes, e não seremos calados, por Ustra, que ameaça uma das nossas militantes, ou por qualquer outro; modificaremos para sempre a estrutura das universidades, imprimindo permanentemente na memória institucional a vida e a morte dos lutadores e lutadoras do povo.
Por isso demos nomes aos módulos da UEFS. Foi para romper o silêncio que se instalou em nossa cidade sobre a ditadura, em Feira parece não haver memória, é como se não tivéssemos vivenciado o período. Foi para lembrar à comunidade acadêmica que a Universidade foi fundada pelos militares e que sua estrutura obedece aos objetivos desse Estado repressor. Dentre tantos e tantas militantes que atuaram em Feira de Santana e na Bahia, escolhemos seis, não apenas para homenageá-los, mas para denunciar os crimes que contra eles foram cometidos e exigir que suas mortes sejam lembradas, enquanto não houver justiça.
O módulo 1 recebeu o nome de Chico Pinto, o prefeito de Feira de Santana no momento do golpe, que teve seu mandato cassado pela Câmara Municipal, organizou uma resistência na cidade, mas acabou preso. Elegeu-se Deputado Federal pelo MDB, mas em 1974, foi novamente cassado e preso, por um discurso no Congresso denunciando os crimes do ditador Augusto Pinochet, no momento em visita ao Brasil.
O módulo 2 é Iara Iavelberg, um dos grandes símbolos da resistência no período, brava militante da luta armada, do MR-8, companheira de Carlos Lamarca, e que foi capturada em Salvador, torturada e assassinada.
O módulo 3 passa a se chamar Antoniel Queiroz, militante do PCB, fundador e presidente do sindicato dos bancários de Feira de Santana, que foi uma das primeiras organizações invadidas e fechadas após o golpe. Foi preso e torturado por 30 dias, tendo falecido pouco tempo depois pelas sequelas dessas torturas.
O módulo 4 foi nomeado Nilda Carvalho Cunha, menina feirense, que abrigava Iara e foi capturada junto com ela. Nilda acabara de iniciar sua corajosa militância na luta armada, foi cruelmente torturada pelo sanguinário Fleury e não sobreviveu aos traumas físicos e psicológicos que isto lhe causou.
O módulo 6 homenageia Carlos Marighella, o guerrilheiro, um comunista, o mulato baiano, como diria Caetano Veloso, o revolucionário criador da ALN, inimigo número 1 do regime militar, o poeta. Foi preso e torturado por diversas vezes, na ditadura de Vargas, e jamais se viu tamanha resistência. Elegeu-se deputado federal, teve seu mandato cassado e entrou na clandestinidade novamente. Expulso do PCB, fundou a ALN e organizou a luta armada contra o regime militar. Foi assassinado por Fleury em uma emboscada.
O módulo 7, por fim, se chama Luis Antonio Santa Bárbara, que iniciou sua militância no movimento estudantil secundarista em Feira, e posteriormente passou a atuar na luta armada, juntamente com Lamarca, Zequinha e outros do MR-8 escondidos no interior da Bahia. Foi assassinado na operação Pajuçara, organizada para capturar Lamarca, e na qual estes companheiros morreram.
Esse nomes trazem em si a dor, a mágoa, e a revolta contra este passado tão vivo ainda hoje, mas também o respeito e a admiração por aqueles que tiveram a coragem de lutar contra esse regime brutal e perderam suas vidas defendendo um mundo melhor. Queremos que sejam debatidos pela comunidade acadêmica, que outros nomes sejam lembrados, e que uma identidade coletiva seja criada na UEFS, de modo que a numeração da ditadura seja para sempre aposentada e os nomes desses lutadores e lutadoras sejam gravados na estrutura da universidade.
Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça!
Feira de Santana, 08 de abril de 2014.
Levante Popular da Juventude
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