
Reportagens da revista Veja e do Jornal Estado de São Paulo (Estadão) revelam que o ex-assessor da Presidência José Yunes afirmou nesta quinta-feira (23/02/2017), que atuou como “mula involuntária” do ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha (PMDB/RS), ao receber um pacote no seu escritório de advocacia, em São Paulo, das mãos do doleiro Lúcio Funaro. A história apareceu na delação premiada do ex-executivo da Odebrecht Cláudio Melo Filho, que disse ter mandado entregar dinheiro em espécie no endereço de trabalho de Yunes, em 2014.
Amigo do presidente Michel Temer, o advogado nega ter recebido dinheiro, mas admite que Padilha pediu, por telefone, para ele receber um documento. “Pelo relacionamento político e partidário que tenho com ele, Padilha pediu se eu poderia receber no escritório um documento, um pacote, para que outra pessoa fosse pegar”, contou Yunes ao Estadão. “Quem levou o documento, que eu não conhecia, era o Lúcio Funaro. Por isso eu brinquei que fui mula involuntária do Padilha.” Funaro foi preso em julho de 2016 na Operação Lava Jato. Era operador do ex-presidente da Câmara e deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ).
José Yunes esteve nesta quinta em Brasília e conversou com Temer sobre o assunto, que tem potencial para se transformar numa nova crise no governo.
Em dezembro, a Coluna do Estadão informou que Funaro entregou a Yunes R$ 1 milhão, quantia proveniente da Odebrecht, a mando de Padilha. Um dos auxiliares mais próximos de Temer, Yunes deixou o governo após vir à tona a delação de Melo Filho. Em sua delação, o executivo da empreiteira disse que, numa reunião ocorrida em 2014, no Palácio do Jaburu, Temer – então vice-presidente – teria pedido dinheiro a Marcelo Odebrecht para o PMDB. Marcelo decidiu doar R$ 10 milhões e, deste total, R$ 6 milhões teriam ido para campanha de Paulo Skaf ao governo de São Paulo e R$ 4 milhões para Padilha distribuir. À época, ele era ministro da Aviação Civil do governo da então presidente Dilma Rousseff.
Yunes disse que nunca viu Melo Filho e também que não conhecia Funaro. “Ele chegou, se apresentou, nós conversamos um pouco sobre política e depois ele foi embora. Mais tarde uma pessoa foi buscar a encomenda nas mãos de minha secretária”, afirmou o advogado, amigo de Temer há 40 anos. “Saí do governo para defender minha honra e não me prevalecer nem do meu cargo nem da amizade com o presidente. Sou louco para ver essa delação para provar a minha inocência.”
Questionado se não abriu o “pacote” que Padilha mandou entregar em seu escritório, Yunes respondeu: “Não caberia a mim violar um documento. Não era eu o destinatário do Padilha”. O advogado também disse não se lembrar do tamanho da encomenda.
O acordo de colaboração dos 77 executivos da Odebrecht recebeu o apelido de “delação do fim do mundo” porque atinge os maiores partidos do país — do PT ao PSDB, passando pelo atual inquilino do poder, o PMDB. Prestes a ter seu sigilo levantado, essa megadelação também ameaça o mandato do presidente Michel Temer, já que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu usar parte de seu conteúdo no processo que pode resultar na cassação da chapa Dilma-Temer.
Paulo Skaf
Nesta semana, o TSE ouvirá Marcelo Odebrecht, ex-presidente da empreiteira, e Claudio Melo Filho, ex-vice-presidente da empresa, para saber se eles confirmam uma das informações prestadas aos procuradores da Operação Lava-Jato: que em 2014, depois de um pedido pessoal de Temer a Marcelo, a Odebrecht repassou 10 milhões de reais em dinheiro vivo, contabilizados em seu departamento de propina, a pessoas da confiança do então vicepresidente.
Do total, de acordo com a delação, R$ 6 milhões irrigaram a campanha de Paulo Skaf ao governo de São Paulo. O pagamento do restante foi realizado “via Eliseu Padilha”, hoje chefe da Casa Civil, e um dos endereços de entrega do dinheiro foi o escritório de advocacia de José Yunes, amigo de Temer há meio século e seu ex-assessor especial.
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