Pesquisadora Mary Garcia Castro palestra sobre o tema ‘Alexandra Kollontai: Feminismo e Revolução de 1917’; evento marca 100 Anos da Revolução Russa e ocorreu na UFRB, em Cachoeira

Mary Garcia Castro: as feministas, hoje, costumam adotar posições dentro de sistemas. O que Alexandra Kollontai reafirma é a luta de classes, não apenas na distribuição de renda e emprego, mas, também, no campo da sexualidade e raça.
Mary Garcia Castro: as feministas, hoje, costumam adotar posições dentro de sistemas. O que Alexandra Kollontai reafirma é a luta de classes, não apenas na distribuição de renda e emprego, mas, também, no campo da sexualidade e raça.

A primeira edição do ‘Ciclo de Debates: 100 anos da Revolução Russa’ abordou o tema ‘A Revolução Russa de 1917: legados e lições’. O evento ocorreu na quarta-feira (09/08/2017), no Auditório do Centro de Artes Humanidades e Letras (CAHL) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), em Cachoeira.

Terceira a palestrar, Mary Garcia Castro (FLACSO) abordou o tema ‘Alexandra Kollontai: Feminismo e Revolução de 1917’, destacando o papel idealista e até esmo utópica de pessoas que fizeram o possível para materializar essas ideias.

A professora infere que autores que abordam a Revolução Russa avaliam que as ideias de Alexandra Kollontai como avançadas, destacando a defesa realizada pela revolucionária feminista no tocante ao amor livre, amor camarada, camaradagem, relação entre a mulher e sexualidade. Observando que a abordagem rica e versátil de Kollontai é uma proposta de outra ordem política, econômica e social mais avançada do que formulações atuais de esquerda, posicionando a revolucionária como uma mulher do século 25, uma pessoa cujos ideais estavam muito afrente do tempo histórico.

Para exemplificar a ação política destes idealistas, a professora abordou a vida de Alexandra Kollontai e o papel na luta feminista.

A pesquisadora afirma que revisitar as ideias revolucionárias de Alexandra Kollontai se faz necessário em decorrência destes “tempos temerosos, em que fundamentalismos religiosos e razão conservadora de estado de exceção se retroalimentam, para afirmar retrocessos, ou impedir o curso da emancipação política, inclusive, em temas como família, sexualidade, direitos sexuais reprodutivos, direitos das mulheres, direito da sexualidade alternativa, principalmente das trabalhadoras e da sexualidade, e das relações sexuais entre os sexos”. A professora Mary Castro avalia que Alexandra Kollontai utou através de uma agenda progressista ao abordar os temas citados.

Mary Castro observa que a União Brasileira de Mulheres (UBM), ao se alinhar ao feminismo emancipacionista, adota uma perspectiva classista, movimentista, antirracista e antipatriarcal, e que estas formulações seriam simplificações, quando observadas a partir do pensamento de Kollontai.

A professora infere que as ideias feministas de Alexandra Kollontai, em contrafação com outras correntes feministas, seguem atual, uma vez que é comum, no tempo presente, a fixação na luta por direitos, sem abalar a estrutura capitalista.

Citando a revolucionária russa, ela firma que “sem radicalidade, não há direito de mulher, não há direito de homossexual, não há direito do negro, não há direito de subalterno que possa vir a ser transformado. Quando muito, serão direitos de alguns”.

Na sequência, Mary Castro chamou a atenção para interseccionalidade entre classe, gênero e raça, observando que a teoria interseccional aborda o estudo da sobreposição ou intersecção de identidades sociais e sistemas relacionados de opressão, dominação ou discriminação.

Mas, comumente, as feministas, hoje, costumam adotar posições dentro de sistemas. O que Kollontai reafirma é a luta de classes, não apenas na distribuição de renda e emprego, mas, também, no campo da sexualidade e raça, comentou Mary Castro.

Kolontai pregava a transformações de mentalidades, condições materiais, inclusive no cotidiano, respeito a individualidades, participação da mulher no trabalho coletivo, na busca pela autonomia financeira, a necessidade da mudança da ideia do amor romântico de subserviência e inferioridade, e na forma de educar os filhos, inferiu Mary Castro.

A pesquisadora comentou sobre obras de Kolontai traduzidas para o português, no Brasil, a exemplo das publicações ‘A luta de classes’ (1906), ‘Base social da questão feminina’ (1908), ‘A nova mulher’ (1918), e ‘A moral sexual’ (1921).

Mary Castro conclui a palestra com o tema ‘Alexandra Kollontai: Feminismo e Revolução de 1917’ apresentando questionamento e hipótese sobre o silêncio da revolucionária com relação ao erros de Josef Stalin  (Gori, 18/12/1878 — Moscou, 05/03/1953), no comando da União Soviética, de 1922 a 1953. Para a pesquisadora, prevaleceu no espírito de Kollontai a defesa da causa revolucionária.

Síntese do perfil da revolucionária

Alexandra Mikhaylovna Kollontai foi uma líder revolucionária russa e teórica do marxismo, membro do partido bolchevique e militante ativa durante a Revolução Russa de 1917. Ela nasceu em 31 de março de 1872, durante o Império Russo e morreu em 9 de março de 1952, em Moscou, capital da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), atual Rússia.

Antes da Revolução de outubro de 1917, entre 1908 e 1917, Kolontai viveu exilada na Alemanha, na Bélgica, França, Inglaterra, Suíça, Itália, Dinamarca, Noruega e nos Estados Unidos. Em 1915, adere novamente ao grupo bolchevique, liderado por Lenin. Foi detida em duas ocasiões, na Alemanha e na Suécia, por fazer propaganda contra a guerra imperialista. Em 1917, regressa à Rússia, contribuindo para formação do estado soviético.

A revolucionária colaborou intensamente com Vladimir Lenine, revolucionário comunista e teórico político que atuou como chefe de governo de 1917 a 1918, durante a República Russa; 1918 a 1922, durante a República Socialista Federativa Soviética da Rússia; e de 1922 a 1924, durante a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Perfil da palestrante

Mary Garcia Castro é doutora em Sociologia pela University of Florida; mestra em Sociologia da Cultura pela UFBA; mestra em Planejamento Urbano e Regional pela UFRJ; graduada em Ciências Sociais pela UFBA; foi pesquisadora visitante no Centro de Estudos Porto-riquenhos do Hunter College, New York (2003-2006); bolsista da Rockfeller Foundation para estudos de pós-doutorado na Universidade de Campinas (2008); Pesquisadora Sênior da UNESCO, é professora aposentada, exercendo o cargo de associada da UFBA, e pesquisadora da Facultad Latino Americana de Ciencias Sociales (FLACSO-Brasil).

Confira vídeo

Leia +

Debate sobre ‘A Revolução Russa de 1917: legados e lições’ reuniu pesquisadores na UFRB, em Cachoeira; pesquisador Nilson Weisheimer comentou sobre 100 Anos da Revolução Russa

Professor Antônio Eduardo Alves palestra sobre o tema ‘A política bolchevique na Revolução Russa’; evento marca 100 Anos da Revolução Russa e ocorreu na UFRB, em Cachoeira

Professor Fábio Batista Perreira palestra sobre o tema ‘A Revolução Russa no Ensino de História’; evento marca 100 Anos da Revolução Russa e ocorreu na UFRB, em Cachoeira

Pesquisadora Mary Garcia Castro palestra sobre o tema ‘Alexandra Kollontai: Feminismo e Revolução de 1917’; evento marca 100 Anos da Revolução Russa e ocorreu na UFRB, em Cachoeira

Pesquisador Jorge Nóvoa palestra sobre o tema ‘Desdobramentos críticos da Revolução de 1917’; evento marca 100 Anos da Revolução Russa e ocorreu na UFRB, em Cachoeira


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Facebook
Threads
WhatsApp
Twitter
LinkedIn

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading

Privacidade e Cookies: O Jornal Grande Bahia usa cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com o uso deles. Para saber mais, inclusive sobre como controlar os cookies, consulte: Política de Cookies.