As promessas daquele tempo | Por Adilson Simas

Em 1937 ocorria a inauguração de filial da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, na Avenida Getúlio Vargas, em Feira de Santana.
Em 1937 ocorria a inauguração de filial da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, na Avenida Getúlio Vargas, em Feira de Santana.
Assis Chateaubriand inaugura campo de pouso em Feira de Santana.
Inauguração do Hangar Assis Chateaubriand, em Feira de Santana

A crônica é de nosso escritor Antônio Moreira Ferreira, o Antônio do Lajedinho, nas páginas 157 a 159 do livro ‘A Feira no Século XX’, lançado em 2006. Vamos curtir ‘As promessas daquele tempo’:

Parece-me que o primeiro médico que residiu em Feira de Santana lá pelos idos de 1865, juntamente com a fundação da Santa Casa de Misericórdia, foi o Doutor Joaquim Remédios Monteiro. De lá para cá, os feirenses ficaram conhecendo os recursos da medicina.

Mas, medicina para todos, só com a chegada de Doutor Gastão Clovis de Souza Guimarães em 1916, embora nada se compare à atualidade, quando a medicina substitui órgãos do nosso corpo com a mesma facilidade que um mecânico troca peças de automóvel.

Naquela época, até 1945, quando chegou a penicilina, a medicina ainda estava engatinhando e os chás de folhas tinham enorme aplicação (para cada uma doença, uma folha diferente), as rezadeiras e, finalmente, as promessas que tinham um preponderante papel entre os remédios.

Ainda hoje, nos dias de determinados Santos, principalmente daqueles dos maus pagadores e das causas impossíveis, vê-se uma multidão fazendo e pagando promessas.

As Igrejas, especialmente a do Bonfim em Salvador, estão cheias de cópias de órgãos em cera ou gesso, como forma de pagamento de promessa de alguém que esteve doente.

Houve um tempo em que os santos milagreiros eram mais distintos, como Nossa Senhora das Candeias, Bom Jesus da Lapa na margem do Rio São Francisco, e outros.

De 1935 a 1940, quando chegava o mês de Nossa Senhora das Candeias, as marinetes viajavam diariamente com grupos de romeiros que alugavam uma casa e lá passavam 2 ou 3 dias em penitência.

No sertão, ainda hoje, nos meses de junho a agosto, são tantos os romeiros que até a polícia rodoviária dá uma permissão especial para que se formem milhares de paus de arara com romeiros.

Quando os transportes eram difíceis, os romeiros costumavam formar grupos para viajarem por vários dias a cavalo ou a pé, comendo e dormindo nas estradas até o destino onde se arranchavam sob árvores ou barracas de palha.

Recordo-me de um grupo formado por algumas famílias que iam para Bom Jesus da Lapa, a pé, tendo na frente uma espécie de batedor que conhecia bem os caminhos por onde andavam quase sempre em fila indiana.

Desta vez, coube a Pedro Tatuzinho o coice (fim da fila), tendo à frente a sua comadre Ormezina. Depois de dois dias de viagem, começou a cair aquela chuvinha fina de inverno e Ormezina, como era costume na época, pegou a ponta da saia e cobriu a cabeça deixando o rosto de fora.

Naquela época, as vestes das mulheres eram compostas de uma saia, um forro, uma combinação e uma anágua. Por isso, levantava-se a saia e ficava o resto das vestes. Mas D. Ormezina, na pressa, levantou todos os complementos enquanto caminhava.

Adiante sentiu a chuva nas nádegas e passou a mão descobrindo que ficara quase nua. Revoltada com o espetáculo proporcionado ao compadre que seguia atrás, inquiriu:

– Por que não me avisou dessa feiúra, compadre Pedro?

– É que eu pensei que fazia parte da “promessa”.

Desculpou-se o malandro compadre.

*Adilson Simas é jornalista.


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