
A solução Mourão, obra do habilíssimo ministro da Defesa, Raul Jungmann, é de uma estultice histórica – recorro ao palavrão apenas para não me referir a tão elevada autoridade com os sinônimos que me assaltaram quando li a notícia. A pretexto de “não criar um herói interno” Jungmann e o comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, entram para a história do Brasil pela coragem de mandar a hierarquia e a disciplina militar às favas – mesmo destino dado aos “escrúpulos de consciência” por um outro general, o Passarinho, no dia 13 de dezembro de 1968, data em que a ditadura pariu seu filhote mais medonho: o AI-5.
O que está por trás da diarréia verbal do general Mourão (Antonio Hamilton) de hoje é bem pior do que a conspiração urdida no começo daquela década de 1960, e deflagrada pelo general Mourão (Olímpyo M. Filho) do passado. Em nome da disciplina desprezada pelo ministro e pelo comandante do Exército, os comandantes daquele outro golpe , também começado em Washington, jogaram duro contra oficiais como o Almirante Aragão, contrário à deposição de um presidente eleito. E reprimiram violentamente soldados e praças que lutavam contra as regras que os definiam como subalternos perante os oficiais.
A defesa da disciplina serviu ao mal num primeiro momento, e, ironicamente, foi ela mesma o esteio para desmontar o aparato da repressão assassina, já àquela altura contaminada pelo tráfico de drogas que teria matado até o temido delegado Fleury. Feita a transição para a democracia a contragosto de muitos chefes militares, faltou consolidar essa mesma disciplina na fixação do verdadeiro papel do braço armado do Estado.
Faltou punir quem conspirou, quem depôs um governo legítimo, cassou mandatos e direitos civis e políticos, prendeu ilegalmente, manteve cárcere privado, torturou, matou, ocultou cadáver, forjou provas e documentos e cometeu uma lista enciclopédica de crimes previstos até mesmo pela constituição de 1967.
Faltou o castigo exemplar como elemento central da doutrina da caserna para não deixar dúvida sobre o que acontece quando um militar, desrespeitando seu superior, sai de seus cuidados para usar efetivos (tropas) e meios materiais para usurpar um poder que não emana das armas. Aos contrário das demais nações sul-americanas infelicitadas por golpes militares entre os anos 1960 e 1970, o Brasil não puniu um único transgressor envolvido nos crimes cometidos em nome do Estado Brasileiro entre 1964 e 1985.
Em nome dessa mesma “estabilidade” o ministro da Defesa e o general comandante do Exército premiam com a impunidade, um reincidente na afronta à disciplina. Se mais algum dos generais de quatro estrelas que Mourão disse pensarem como ele fizer algo parecido, terá o mesmo tratamento? Se sim, então quartel pode fazer uma rima que certamente ofenderia qualquer militar que não simpatize com as casas de tolerância. Se não, se um novo gesto de indisciplina for finalmente punido, estará criado o tal heroi interno, temido a ponto de justificar que se arrebente, neste Brazil de 2017, a espinha dorsal de qualquer instituição militar daqui ou em qualquer parte do mundo, hoje ou nos primórdios.
Não é mera coincidência, o ideário conservador entre golpistas do passado e de agora, centrado no debate moralista da defesa da família e da propriedade e no ódio ao comunismo. Mas há uma diferença marcante: o sentimento em relação ao Brasil. O nacionalismo dos de antes foi substituído pelo mais deslavado entreguismo dos golpistas do século XXI.
E isso inclui as Forças Armadas: esqueçam o reaparelhamento bancado pelos governos petistas, nada de submarino nuclear, nada de manter como patrimônio nacional a tecnologia de cientistas militares e civis no beneficiamento de urânio, a Amazônia, a Base de Alcântara e muito mais. E por favor: não me venham com esse papo furado de soberania nacional, porque isso é conversa retrógrada de comunistas.
Com a disciplina militar mandada às favas, a podridão do sistema político escancarada; com a mundanidade de suas excelências até então escondida sob as togas, finalmente revelando as vergonhas até então bem guardadas nos suntuosos palácios dos tribunais; com a imprensa mais cínica do planeta… onde vamos parar?
*Ernesto Marques é jornalista.









