O fotógrafo e professor da Universidade de São Paulo, Atílio Avancini, retornou nesta Na quarta-feira (23/11/2017), a Feira de Santana para o lançamento do livro Festa do Bonfim, obra construída a partir de registros fotográficos analógicos da tradicional celebração religiosa baiana. O evento, realizado no Museu de Arte Contemporânea Raimundo de Oliveira, reuniu intelectuais, artistas e pesquisadores, destacando o papel da fotografia como instrumento de preservação cultural e documental.
Trajetória e vínculo com Feira de Santana
A presença de Avancini na cidade carrega um significado histórico. Na década de 1980, o fotógrafo atuou como formador ao ministrar cursos de fotografia artística, contribuindo diretamente para o surgimento de profissionais locais. Esse vínculo consolidou sua relevância no cenário cultural feirense, sendo reconhecido como um agente formador de gerações.
Durante o lançamento, o autor ressaltou a importância da fotografia como linguagem capaz de capturar dimensões simbólicas da cultura popular. Ao abordar a Festa do Bonfim, enfatizou o caráter histórico e religioso da celebração, considerada uma das mais representativas da Bahia.
O livro apresenta imagens em preto e branco que evidenciam a força estética e documental da fotografia analógica, marcada por processos técnicos mais elaborados e uma construção visual menos imediatista.
Fotografia analógica e linguagem autoral
As imagens que compõem a obra foram produzidas antes da popularização da fotografia digital, exigindo um processo artesanal que, segundo Avancini, contribui para a construção de um olhar mais atento e reflexivo. O autor destaca que seu trabalho busca “a cena espontânea, a imagem não posada”, afastando-se do padrão tradicional do fotojornalismo.
Para ele, a fotografia contemporânea enfrenta um paradoxo: ao mesmo tempo em que se tornou mais acessível, também passou por um processo de banalização. Nesse contexto, a valorização do método analógico aparece como um diferencial técnico e estético.
Avancini também relativiza o uso do termo “artista”, preferindo definir sua abordagem como um “olhar de artesão”, em oposição ao que considera um desgaste conceitual da palavra no campo cultural.
Conteúdo e proposta da obra
O livro Festa do Bonfim tem como eixo central a documentação da religiosidade popular e das manifestações culturais associadas ao festejo. A obra busca resgatar elementos da cultura afro-brasileira, destacando o papel do povo como protagonista das imagens.
Segundo o autor, trata-se de um registro construído a partir do acaso e da observação direta, sem interferência na cena. A proposta é capturar a essência da fé popular, traduzida em gestos, expressões e rituais.
Entre os objetivos declarados da obra estão:
- Preservar a memória cultural baiana
- Valorizar a tradição religiosa
- Registrar a espontaneidade das manifestações populares
O lançamento em Feira de Santana e em Salvador foi descrito por Avancini como um retorno simbólico, uma forma de reconectar a obra às suas origens culturais.
Reflexões sobre o mercado editorial e a fotografia contemporânea
Durante o evento, Avancini apresentou uma avaliação crítica sobre o cenário atual da produção cultural. Segundo ele, a democratização dos meios técnicos ampliou o acesso à fotografia e à publicação de livros, mas também reduziu os critérios de qualidade e curadoria.
“Hoje qualquer pessoa faz um livro, como qualquer um fotografa”, afirmou, destacando que o valor de uma obra tende a ser definido pelo tempo e pela sua permanência cultural.
Essa visão reforça uma abordagem tradicional da produção artística, baseada na técnica, no rigor e na maturação do trabalho ao longo dos anos.
Formação acadêmica e reconhecimento
Atílio Avancini possui pós-doutorado pela Universidade Sorbonne Nouvelle Paris 3 e trajetória consolidada no meio acadêmico e artístico. É autor de obras como Entre Gueixas e Samurais e integrante da coleção Artistas da USP.
Seu trabalho já foi exposto em instituições de referência, como:
- Museu da Imagem e do Som (MIS)
- Museu de Arte de São Paulo (MASP)
- Pinacoteca do Estado de São Paulo
O reconhecimento acadêmico também se reflete na recepção de suas obras por estudantes da USP, que elegeram um de seus livros entre os preferidos.








