
Segundo o sociólogo dinamarquês Gosta Esping-Andersen as políticas sociais devem ser analisadas através da tríade mercado, Estado e família. O mercado tem um papel importantíssimo na provisão de bem-estar social na medida em que através da renda do trabalho conseguimos prover o nosso sustento. O ideal é que a renda do trabalho seja suficiente para comprar no mesmo mercado todos os serviços sociais, tais como saúde, educação, moradia, cuidados e previdência. Contudo, o mercado não é perfeito, especialmente por causa de crises econômicas, que redundam em desemprego e consequentemente falta de renda.
Enquanto parte dos países europeus conseguem quase garantir o pleno emprego, na América Latina e no Brasil não conseguimos criar emprego para todas as pessoas em idade ativa. Nenhum país do continente consegue mercantilizar a sua força de trabalho, o que faz a região se tornar instável do ponto de vista da garantia dos direitos sociais. Além disso, corremos o risco de ficarmos doentes e dessa forma não poder garantir o bem-estar pessoal e também da família. Como o mercado é instável e não garante proteção aos riscos sociais, Gosta Esping-Andersen sugere a presença do Estado, o qual poderia ser o responsável em proteger seus cidadãos nas falhas do mercado. Em muitos país do mundo existe uma rede de proteção social que consegue proteger os cidadãos nacionais das oscilações do mercado.
Já na América Latina, o Estado também não consegue proteger todos os seus cidadãos dos riscos sociais, sendo que saúde, educação, moradia, previdência e cuidados acabam sendo relegados aos cuidados da família. Em virtude disso, quando mercado e Estado não dão conta de proteger seus cidadãos na cobertura de riscos, sobra para o terceiro ente da tríade, a família. Essa função existe faz muito tempo, sendo que na América Latina os estudiosos chamam a atenção para o papel central da família ou mesmo das mulheres no cuidado aos riscos sociais. O familialismo é o agente central na proteção social na América Latina, especialmente em relação aos cuidados aos membros da família.
Assim sendo, fica claro o motivo dos liberais brasileiros defenderem tanto o mercado na economia como também a família na esfera privada. Fica subentendido que esses liberais reconhecem que o mercado é insuficiente e por isso precisam da família para proteger os seus cidadãos das intempéries do mercado. Em muitos lugares o Estado assume essas funções, tornando-se um elemento central para a participação das mulheres no mercado de trabalho. Mas, por aqui os liberais são contra o Estado, repassando medidas de proteção social às famílias.
Estranho nisso tudo é que o excesso de atividades na esfera doméstica impede especialmente as mulheres de assumirem atividades remuneradas fora do âmbito familiar. Com isso, as atividades intensas na família acabam atrapalhando a mercantilização da força de trabalho e o próprio desenvolvimento do capitalismo. Mantém-se um mercado insuficiente e um monte de cuidados relegadas ao ambiente familiar. E assim os liberais conseguem defender o mercado e a família, mas não conseguem nem fomentar a mercantilização da força de trabalho muito menos o espírito do capitalismo.
*Clóvis Roberto Zimmermann, Doutor em Sociologia pela Universidade de Heidelberg, Alemanha e Professor Adjunto de Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). E-mail: clovis.zimmermann@gmail.com










