Um grande livro | Por Joaci Góes

Saio da leitura do livro de memórias de Sebastião Nery enriquecido com a multiplicidade das experiências e das vidas que aborda, do Brasil e do mundo, a partir do fim da Segunda Grande Guerra. Sem qualquer dúvida, ‘A NUVEM, o que ficou do que passou – 50 anos de História do Brasil’, é uma obra notável sob vários aspectos, permeados todos eles por superior qualidade literária que faz de sua leitura insuspeitada fonte de prazer. Essa é a conclusão a que inelutavelmente chegará quem superar a resistência inicial de percorrer as seiscentas sólidas páginas que compõem o alentado e belo volume.

Eu mesmo me senti de tal modo envolvido pela fascinante narrativa de Nery que concluí em seis dias uma leitura inicialmente programada para consumir um mês. Mais ainda: cheguei à última página com aquela sensação de “quero mais” que só as grandes obras são capazes de despertar no leitor. Trata-se, de fato, do magnum opus de um autor que chega ao apogeu do seu processo criativo já consagrado pela produção de dezesseis best-sellers que continuam a encantar o País em sucessivas reedições, ao longo dos últimos quarenta e sete anos, tendo a política e a vida das pessoas e do povo brasileiro como temas centrais. Dentre outras, Nery possui a marcante singularidade de escrever, apenas, sobre experiências que testemunhou ou viveu. É por isso que o livro tem ritmo de novela.

‘A NUVEM, o que ficou do que passou’, é, ao mesmo tempo, a história do Brasil e do mundo, e dos seus principais protagonistas, em múltiplas dimensões – política, econômica, artística e social, na segunda metade do século passado, e a autobiografia rocambolesca do autor, Sebastião Nery, tudo isso compondo um caleidoscópio que se funde num todo homogêneo para formar um clássico do gênero, destinado a figurar como objetos de estudos acadêmicos e fonte inesgotável de ensinamentos de um jornalismo que só é possível quando se associam talento, coragem física e moral, erudição e espírito público.

Não é à-toa nem é de agora; vem de muito longe o reconhecimento de Nery como um dos maiores jornalistas de todos os tempos. Não sei de outro brasileiro que tenha vivido de modo tão intenso, imprevisível e emocionante quanto a vida que Nery nos contou nesta obra ciclópica que instrui e diverte. Recorde-se, a título de ilustração, que este baiano nascido em Jaguaquara é a única pessoa que realizou a façanha de se eleger para postos legislativos por três estados da Federação: vereador por Minas, Belo Horizonte; deputado estadual pela Bahia e deputado federal pelo Rio de Janeiro. Também não sei se por faro jornalístico ou simples capricho do destino, impressiona o número de personalidades que Nery conheceu, dentro e fora do Brasil, em fases muito anteriores àquelas em que despontariam como líderes dos seus povos, a exemplo do futuro Papa João Paulo lI, então Karol Józef Wojtyla, Bispo de Cracóvia, e do estudante Mikhail Sergeievich Gorbachev, futuro líder da União Soviética. Coincidentemente, os dois no mesmo congresso estudantil na Polônia.

Entre os vários episódios marcados por um humor estridente, desponta a crise de angústia histérica que Jânio Quadros exibiu ao tomar conhecimento, na presença de Nery e de outras testemunhas, da morte de sua amada cadela Muriçoca. Recomendo a leitura deste grande livro como meio seguro de aumentar o gosto pela vida. Até porque o amor é o valor mais exaltado, entre todos os temas que integram seu exuberante conteúdo. Se dúvidas sobre isso pudesse haver, o autor as elidiria ao dedicar todo um capítulo, o 38, para resumir a resposta à pergunta do subtítulo: o amor é o que ficou do que passou.

A vida do hiperativo Sebastião Nery prova o valor de sua crença de que como compensação aos perigos de caminhar à frente, é sob os pés dos vanguardeiros que as borboletas levantam voo.

*Joaci Fonseca de Góes, advogado, jornalista, empresário e político.

Jornalista Sebastião Nery é autor do livro ‘A Nuvem: o que ficou do que passou’.
Jornalista Sebastião Nery é autor do livro ‘A Nuvem: o que ficou do que passou’.

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