Não sabemos quanto tempo os brasileiros conseguirão continuar a viver sem futuro, diz pesquisadora Heloísa Starling; Aula magna da UFBA abordou ‘O Brasil como Distopia’

Historiadora Heloísa Starling considera que o Brasil se revestiu de uma camada superficial externa de valores civilizatórios que recobre uma sociedade fundada na escravidão – violenta, autoritária e desigual – , que não olha para si mesma.
Historiadora Heloísa Starling considera que o Brasil se revestiu de uma camada superficial externa de valores civilizatórios que recobre uma sociedade fundada na escravidão – violenta, autoritária e desigual – , que não olha para si mesma.

A aula magna integrada dos Programas de Pós-graduação da Universidade Federal da Bahia (UFBA) no primeiro semestre de 2021 abordou ‘O Brasil como Distopia’, com a participação da historiadora e cientista política Heloísa Starling, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), nesta quinta-feira (04/03/2021).

Conforme destacou Starling, projetar o Brasil tem sido objetivo de vários pensadores e intelectuais ao longo da história do país, há pelo menos 100 anos. A imaginação brasileira, disse ela, irradiou e construiu discursos sobre processos de pertencimento, quase sempre guiados pela retórica do futuro, com expectativas de que um dia o Brasil seria, de fato, livre, democrático e desenvolvido.

Esse país projetado no futuro está amplamente presente na canção popular brasileira, conforme observa a professora, apontando, entre tantos exemplos, os versos de Chico Buarque, que dizem: “apesar de você / amanhã há de ser outro dia”. Starling utilizou também exemplos da literatura brasileira para tratar sobre um futuro otimista e especulativo, falando sobre uma “ficção engenhosa de nação”, em referência ao pensamento de Joaquim Nabuco; e destacando uma espécie de “desejo de grandeza que nunca se realiza”, relendo Antônio Cândido. “A gente sonha incessantemente com um país que a gente deseja e que paradoxalmente não se concretiza”, avalia.

Na abertura do evento, o reitor João Carlos Salles falou sobre a importância de fazer uma reflexão sobre a situação atual do país e sinalizou “a necessidade de prezarmos a nossa conduta pública, de pessoas públicas que devem cordialidade e honestidade intelectual, e por isso mesmo não podem renunciar a testemunhar, com suas ações e palavras, essa conduta”. “Estamos celebrando o pensamento, a liberdade de expressão, o bom debate”, disse Salles. “Somos uma instituição que, além de sermos parte do Estado, temos autonomia para fazer exatamente o que fazemos. Servimo-nos de dados precisos e colocamos à disposição da comunidade os nossos argumentos”, afirmou o reitor, que defende a universidade como espaço público de debate e divergência, mas não de destruição, e sim de livre manifestação científica, cultural e artística. “Aqui celebramos o pensamento e continuaremos celebrando o pensamento com liberdade de expressão. Defendemos isso como instituição e para cada um de nossos membros, os membros de nossa comunidade”.

O evento virtual teve mediação do professor de filosofia da UFBA Waldomiro da Silva Filho, que destacou as contribuições de Heloísa Starling à historiografia e citou os seus livros mais recentes, “Brasil: uma biografia” (Cia. das Letras, 2015) e “A bailarina da morte”, (Cia. das Letras, 2020), ambos em coautoria com a professora Lilia Schwarcz (USP). Este último aborda a situação do Brasil durante a pandemia da gripe espanhola no inicio do século passado. “Somos teletransportados, aos pedacinhos, para o presente”, disse ele sobre a mais recente obra que aponta semelhanças com a pandemia em curso no país. “A experiência de ler Heloísa é a experiência de tecer o bordado da memória e da nossa vida”.

Heloísa Starling refletiu sobre o que se passa com o “país do futuro”. A historiadora considera que o Brasil se revestiu de uma camada superficial externa de valores civilizatórios que recobre uma sociedade fundada na escravidão – violenta, autoritária e desigual – , que não olha para si mesma. No seu entendimento, isso serve como uma tentativa de redimir a história, sem que seja preciso qualquer arrependimento ou remorso.

Para ela, existe a possibilidade de o futuro ter chegado e de ele ser distópico, sem esperanças – e é disso que resulta a frustração. No Brasil, conforme analisa, a narrativa distópica está ancorada nos fatos do presente. Starling recorreu novamente à literatura para apontar autores que demonstram essa distopia em sua obra, como é o caso de Ignácio de Loyola Brandão, “mestre da nossa ironia distópica”. Seu livro “Não Verás País Nenhum”, publicado em 1981, narra a floresta amazônica transformada no maior deserto do mundo. Em “Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela”, lançado em 2018, ele descreve um país em que não existem mais os ministérios da Educação, da Cultura, do Meio Ambiente e dos Direitos Humanos.

De “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, livro que descreve o cenário de destruição e morte em Canudos, no sertão baiano, Starling citou o trecho que diz “A vida normalizara-se naquela anormalidade”. Em sua avaliação, o Brasil atual resulta de tudo o que está acumulado em seu passado. Falou ainda sobre o que o ressentimento pode fazer com as pessoas, apontando a violência retratada em contos de Rubem Fonseca.

A historiadora lembra que a experiência democrática no país tem sofrido com muitos golpes de Estado. Contou ao menos 10 golpes, desde o primeiro, no início dos anos 1890, com o fechamento do Congresso Nacional pelo marechal Deodoro da Fonseca. Falou sobre a erosão das instituições democráticas e das tentativas de minar o sistema judiciário e também a mídia. “A democracia está sendo destruída por dentro do país”.

“A epiderme civilizatória se rompeu. Se não se rompeu em toda a sociedade, se rompeu em parte significativa”, afirmou Heloísa Starling. E questionou: “O que aconteceu com a sociedade brasileira?”, ao observar que, do início dos anos 2000 até 2014, a impressão era de que o país tinha um sistema democrático fortalecido e consolidado, mas alguma coisa deu errado. “A qualidade de nossa democracia está ameaçada”, alertou.

A professora avalia que, pela primeira vez em sua história, o Brasil não tem sequer um projeto de futuro. “Existe uma conjunção e complexidade de crises de saúde, meio ambiente, economia, educação e política”. Ela falou sobre a maneira desigual como a pandemia vem atingindo a população, fazendo como principais vítimas negros, pobres, idosos e moradores das periferias, e apontou uma espantosa indiferença por parte de pessoas que ignoram valores como solidariedade e compaixão. “Isso é inédito na história do Brasil”, avalia.

“Temos que afirmar o sentido da democracia como um valor ético, jurídico e político”, defende Starling. “A distopia não é o fim da história, é o ponto de partida para que possamos mudar o presente”, disse a professora. “Quem defende a democracia é a sociedade. Somos nós quem temos que fazer isso”, acrescentou.

“O tempo presente é o nosso grande desafio. Estamos diante da urgência de projetar o nosso futuro para ajustar as contas com o nosso passado”, evidenciou ela, reafirmando a necessidade de se olhar para o passado e pôr o dedo na ferida. “Mas precisamos fazer isso rápido”, afirmou, já que, afinal, “não sabemos quanto tempo temos e quanto tempo os brasileiros conseguirão continuar a viver sem futuro”.

*Com informações da Universidade Federal da Bahia (UFBA).


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