O papel da Universidade Moderna, 5: O caso da UFBA | Por Joaci Góes

Ao polímata e eminente Magistrado Carlos Roberto Santos Araújo!

Concluímos nosso artigo anterior, prometendo sugerir, neste último da série, “o que deveria ser o papel da outrora respeitada Universidade Federal da Bahia, hoje, em 18º lugar, no Brasil, entre as unidades públicas, abaixo do Ceará, Alagoas e Sergipe”.

Sem a mínima pretensão de domínio sobre a magna questão, e atento à conveniência de restringir-me a um modo que tanto os doutores quanto os leigos possam compreender, ficarei em três sugestões que, tivessem sido incorporadas pela nossa Universidade Federal da Bahia (UFBA), tê-la-iam mantido no plano da utilidade e apreço da sociedade baiana e brasileira que fizeram parte da primeira fase de sua história, agora prejudicada por seu desmedido envolvimento com interesses político-partidários, em postura que caracteriza ostensivo desvio de finalidade, sem qualquer identidade com o espírito da necessária autonomia universitária. As sugestões são:

1) Desenvolvimento do Semiárido;

2) Desenvolvimento de técnicas para a universalização do saneamento básico na Bahia;

3) Aprimoramento da educação baiana nos três níveis: fundamental, básico e universitário.

1) Dez das 27 unidades federadas brasileiras – Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe – encontram-se, no todo ou em parte, no Semiárido, que cobre uma área total de cerca de 1.100.000 km², dos quais 370 mil quilômetros quadrados, na Bahia, que abrigam 226 dos 417 municípios baianos. Quase 70% do território da Bahia, portanto, está no Semiárido, onde vivem cerca de sete milhões de pessoas, 75% das quais em idade de trabalhar.  À UFBA, através de algumas de suas unidades, caberia coordenar os estudos já existentes e novos, destinados a aprimorar o desenvolvimento regional em sintonia com suas características autóctones, em lugar do erro histórico da imposição de técnicas divorciadas da vocação ambiental. A baixa pluviosidade e os elevados níveis de evaporação integram-se para constituir o maior desafio a vencer que já se sabe não residir na irrigação, como tem sido a equivocada tendência histórica, em grande parte como mecanismo de desvio de recursos. Basta mencionar que a evaporação aí chega a ser três e até quatro vezes maior do que a precipitação pluviométrica. Daí dizer-se que, no Semiárido, chove de três a quatro vezes mais de baixo para cima do que de cima para baixo;

2) Quase dois terços dos baianos vivem e morrem à míngua de um saneamento básico que melhoraria a sua qualidade de vida, sua produtividade, saúde e longevidade. Além do que a ausência desse requisito tão fundamental aumenta os dispêndios com saúde pública que podem chegar a centenas de vezes mais entre comunidades com e sem saneamento básico.  A UFBA, através de suas unidades próprias, lideradas pela engenharia, coordenaria o programa de desenvolvimento das técnicas mais adequadas às características e necessidades da região, contribuindo, de modo decisivo para o desenvolvimento econômico e IDH das populações locais. A carência de saneamento básico vem matando, contínua e sistematicamente, mais baianos e brasileiros do que a eventual Covid 19.

3) A Bahia, tragicamente instalada no último lugar da má educação que se pratica no Brasil, possui um dos piores sistemas de ensino do Planeta. Atenta ao reconhecimento da educação como o fator determinante da prosperidade dos povos, a UFBA, sempre através da ação interativa de suas unidades de ensino e pesquisa, compatíveis com o problema sob análise, em convênio com os municípios e o Executivo estadual, faria diagnósticos regulares, para identificar as medidas mais eficazes para a restauração da pedagogia de que nos afastamos. Uma vez restaurado o compromisso com a Ciência, de que se afastou por motivações ideológicas que nada têm a ver com sua missão, a UFBA, além de resgatar a educação, na Bahia, do patamar de indigência em que se encontra, lideraria o processo de recondução da educação brasileira aos padrões observados nos países mais avançados.

A abordagem, com mais profundidade, de cada um desses três temas, porém, será o assunto da série de artigos que escreveremos, a partir da próxima semana.

*Joaci Fonseca de Góes, advogado, jornalista, empresário e político.


Leia +

O papel da Universidade Moderna 1 | Por Joaci Góes

O papel da Universidade Moderna, 2 | Por Joaci Góes

O papel da Universidade Moderna 3 | Por Joaci Góes

O papel da Universidade Moderna, 4 | Por Joaci Góes


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