EUA ameaçam China com sanções para obrigar país oriental a tomar medidas contra a Rússia; Desrespeito à soberania e violação de direitos marcam atuação do Governo Biden no conflito entre Rússia e Ucrânia

Presidente Joe Biden usa poder econômico dos EUA como arma de guerra contra Rússia, China, Irã e outros países.
Presidente Joe Biden usa poder econômico dos EUA como arma de guerra contra Rússia, China, Irã e outros países.

Os Estados Unidos têm meios para “tomar medidas” contra a China se o Governo Xí Jìnpíng não cumprir as sanções aplicadas à Rússia em meio à crise ucraniana, disse a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, nesta segunda-feira (07/03/2022).

“[…] Eles [os chineses] obviamente se ausentaram da votação do Conselho de Segurança da ONU e fizeram alguns comentários sobre a soberania e integridade territorial da Ucrânia. Não cumprir as sanções que sempre temos, você sabe, claramente temos meios de tomar medidas […]”, disse Psaki durante uma coletiva de imprensa.

Também nesta segunda-feira (7), o presidente dos EUA, Joe Biden, e líderes europeus – como Emmanuel Macron e Olaf Scholz – se comprometem a aumentar os custos da Rússia durante uma reunião em videochamada, informou a Casa Branca.

“O presidente Joe Biden realizou nesta segunda-feira (7) uma videochamada com o presidente Emmanuel Macron da França, o chanceler Olaf Scholz da Alemanha e o primeiro-ministro Boris Johnson do Reino Unido. Os líderes afirmaram sua determinação em continuar aumentando os custos da Rússia […]”, disse a Casa Branca em um comunicado à imprensa.

Qual a posição da China no conflito?

Desde que a Rússia iniciou o envio de suas tropas para a fronteira com a Ucrânia, no final de 2021, a China vem adotando um comedido discurso pró-Moscou.

Nas semanas que antecederam a invasão, o ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, classificou as preocupações de Moscou em relação à sua segurança nacional como “legítimas”, afirmando que elas deveriam ser “levadas a sério e discutidas”.

Por meio da imprensa estatal, o governo em Pequim também afirmou que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) adota uma posição agressiva ao se recusar a respeitar o direito soberano de outros países – como Rússia e China – de defender seu território.

“Tanto a Rússia quanto a China desejam criar uma posição de antagonismo em relação aos Estados Unidos e encontram nessa ambição uma posição em comum”, diz Alexandre Uehara, coordenador acadêmico do Centro Brasileiro de Estudos de Negócios Internacionais da ESPM.

Para Vicente Ferraro Jr., cientista político e pesquisador do Laboratório de Estudos da Ásia da Universidade de São Paulo (USP), há também um componente ideológico envolvido na aproximação entre as duas potências.

“Ambas contestam em parte o liberalismo político e acusam o Ocidente de tentar ‘exportar’ seus modelos políticos, de maneira inapropriada, a outras sociedades e contextos culturais. O liberalismo político e, indiretamente, a democracia representativa são apresentados por ambas não como valores universais, mas como construções do Ocidente instrumentalizadas para fins geopolíticos”, diz.

Após o início oficial da operação militar russa na Ucrânia na semana passada, o governo chinês disse acreditar na “soberania e integridade territorial de todos os países”, mas também expressou a opinião de que a Rússia tem “preocupações legítimas de segurança” que “devem ser levadas a sério e tratadas adequadamente”.

Na quarta-feira (02/03), Pequim ainda rechaçou a possibilidade de impor sanções contra a Rússia e classificou as penalidades econômicas anunciadas por Estados Unidos e Europa como ilegais.

“Não aprovamos as sanções financeiras, especialmente as sanções lançadas unilateralmente, porque elas não funcionam bem e não têm fundamento legal”, disse Guo Shuqing, presidente da Comissão Reguladora de Bancos e Seguros da China, em entrevista coletiva. “Continuaremos a manter as trocas econômicas e comerciais normais com as partes relevantes”, disse ele.

De forma bastante significativa, a China também não usou em nenhum de seus pronunciamentos a palavra “invasão” quando se trata das ações da Rússia na Ucrânia.

No entanto, de forma surpreendente, Pequim absteve-se do voto do Conselho de Segurança das Nações Unidas condenando a invasão russa da Ucrânia.

O país também preferiu se abster de uma segunda resolução, votada pela Assembleia-Geral da ONU. O texto, aprovado por 141 Estados-membros, também critica o governo russo por suas ações militares e classifica o reconhecimento da independência das regiões de Donetsk e Luhansk como uma “violação da integridade territorial e soberania da Ucrânia, inconsistente com os princípios da Carta das Nações Unidas”.]

Ao mesmo tempo, um dos fatos mais notáveis sobre a reação da China ao conflito é que não houve palavras do presidente Xi Jinping — todas as declarações foram emitidas por representantes dos ministérios.

Afronta a interesses internos

Para além do impacto econômico, a China ainda tem interesses políticos em jogo.

Do ponto de vista geopolítico, o governo de Xi Jinping pode estar buscando não se contradizer, pois uma mensagem repetida constantemente pelos líderes chineses é a de que o país não interfere em assuntos internos de outros e que outras nações não deveriam interferir em suas questões internas.
Para Alexandre Uehara, a China não aprovou o reconhecimento da independência das regiões de Donetsk e Luhansk, e assim que a decisão foi anunciada por Putin passou a amenizar seu discurso a favor de Moscou.

“A China também possui territórios que demandam mais autonomia e independência, como Taiwan, Tibete e Xinjiang, e vê no reconhecimento da independência de regiões separatistas na Ucrânia uma afronta aos seus interesses internos”, diz.

Segundo Uehara, o governo chinês teme que se apoiar as ações da Rússia na Ucrânia, outros países possam tomar atitudes semelhantes à de Putin em relação aos seus próprios territórios.
E ao se abster das votações nas Nações Unidas contra a Rússia, Pequim pode estar buscando sinalizar para o resto do mundo qual a sua posição verdadeira sobre o tema.

“Embora tal movimento não represente um veto contra a Rússia, ele traz diferentes implicações políticas. Pode representar uma sinalização à Rússia de que a China está preocupada com a escalada de tensões e com o impacto político e econômico que o conflito pode ocasionar no sistema internacional”, diz Vicente Ferraro Jr., do Laboratório de Estudos da Ásia da USP.

“Mas também pode sinalizar a países em desenvolvimento e do sul global que a China não compactua de práticas intervencionistas promovidas por grandes potências”.

Ao mesmo tempo, quando o governo chinês rejeitou a imposição de sanções contra a Rússia, nos últimos dias, sabia que poderia receber tratamento semelhante se decidir tomar Taiwan à força, no que seria uma operação custosa e sangrenta.

A ilha se proclamou república independente em 1911 e se estabeleceu como uma democracia, mas a China a considera parte inalienável do seu território e nos últimos anos tem se empenhado ostensivamente no projeto de reunificação.

Durante um encontro regular com a imprensa em Pequim, Hua Chunying, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, disse que a China nunca acreditou que sanções eram a melhor forma de resolver problemas entre nações.

Para o Partido Comunista Chinês, a forma como a atual crise poderá impactar seu próprio povo e sua visão de mundo também é uma preocupação.

Por esse motivo, o governo está manipulando e controlando as informações sobre a situação na Ucrânia na sua imprensa e mídias sociais.

Presidente da França insta a ‘sempre respeitar a Rússia como um país e o povo russo’

Em meio à operação especial russa na Ucrânia, o presidente francês crê que é necessário cultivar laços humanos com a Rússia, “mesmo que tenhamos diferenças”.
Emmanuel Macron, presidente da França, disse na terça-feira (08/03/2022) que a Rússia e seu povo devem ser tratados com respeito em meio à situação na Ucrânia, pois uma paz de longo prazo é impossível sem a participação da Rússia.

“Somos responsáveis por manter todos os laços humanos possíveis: continuar falando com os povos russo e belarusso com a ajuda de artistas, intelectuais, cooperação na esfera técnica, comércio e ONGs”, apontou o chefe de Estado em uma reunião pré-eleitoral na comuna de Poissy, França.

“Esta é a minha tarefa de continuar falando com os líderes, mesmo que tenhamos diferenças […] e sempre respeitar a Rússia como um país e o povo russo”, acrescentou Macron.

O presidente francês sublinhou que seria impossível falar de uma paz duradoura se a Rússia não for parte da “grande arquitetura da paz” do continente europeu.

A Rússia lançou uma operação militar especial na Ucrânia nas primeiras horas de 24 de fevereiro, depois que as repúblicas populares de Donetsk e Lugansk pediram ajuda para se defender contra a agressão de Kiev. A Rússia declarou que o objetivo é “desmilitarizar” e “desnazificar” a Ucrânia, e que apenas a infraestrutura militar ucraniana seria visada.

Moscou sublinhou repetidamente que não tem planos de ocupar a Ucrânia. Segundo Vladimir Putin, presidente da Rússia, o objetivo é proteger o povo de Donbass, “que foi submetido a abusos e genocídios pelo regime de Kiev por oito anos”.

Em resposta, os países ocidentais lançaram uma campanha abrangente de sanções contra Moscou, que inclui fechamento do espaço aéreo e medidas restritivas visando vários funcionários e entidades russas, mídia e instituições financeiras. O Ocidente também tem passado por uma onda russofóbica, com diplomatas, organizações culturais e cidadãos da Rússia sofrendo agressões e boicotes.

*Com informações da Agência Sputnik Brasil e  de Julia Braun, da BBC News Brasil em São Paulo.


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