No Bicentenário da Independência do Brasil, Feira de Santana comemora participação de Maria Quitéria como uma das heroínas

Na Bahia, o movimento pela independência começou em fevereiro de 1822. Sete meses antes da proclamação por Dom Pedro, mas os portugueses se recusaram a sair da província e houve uma guerra que durou até a expulsão deles, no dia 2 de julho de 1823.

Uma das heroínas foi Maria Quitéria que fingiu ser homem, usando o nome do cunhado dela, soldado Medeiros, e se alistou como voluntária na guerra. Ela se destacou por sua bravura, foi descoberta, mas continuou lutando e chegou a receber uma condecoração de Dom Pedro I.

Uma feirense na luta pela independência do Brasil

A reportagem de c, BBC News Brasil, narra que Maria Quitéria estava em casa, na fazenda Serra da Agulha, quando representantes do Conselho Interino da Província bateram à porta de seu pai, o fazendeiro Gonçalo Alves de Almeida, para recrutar soldados. O viúvo explicou que não tinha filhos com idade para servir, nem enviaria escravos para o campo de batalha. E mais: ele próprio estava muito velho para lutar pela Independência do Brasil. Era setembro de 1822.

Assim que os emissários foram embora, sua filha pediu permissão para se alistar. “Mulheres fiam, tecem e bordam. Não vão à guerra”, resmungou o pai. Maria Quitéria não aceitou o ‘não’ como resposta. Correu até a casa da irmã, que lhe emprestou o uniforme do marido. A jovem, então, cortou o cabelo bem curto, vestiu a farda militar do cunhado e, sob a alcunha de ‘Soldado Medeiros’, foi se apresentar ao comando de Cachoeira.

O pai, ao notar o desaparecimento da filha, saiu à sua procura. Logo, a encontrou entre os oficiais da infantaria. Mesmo depois de ter seu disfarce revelado, não abandonou o Exército. Ela integrava o Batalhão dos Periquitos, apelido dado ao regimento que usava uniforme com verde e amarelo nos punhos e na gola. Entre outras proezas, a moça-cadete capturou prisioneiros entre as tropas portuguesas durante uma batalha em Itapuã.

“No dia 1º de abril de 1823, ao lado de outras mulheres, Maria Quitéria, com água quase até o pescoço, avançou em direção a uma barca portuguesa e impediu o desembarque dos que não reconheciam a Independência”, descreve o jornalista Eduardo Bueno, autor de Dicionário da Independência — 200 Anos em 200 Verbetes. “Dom Pedro I a condecorou com a insígnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro”.

Terminada a guerra, Maria Quitéria voltou para casa. Meses depois, se casou com o agricultor Gabriel Pereira de Brito, com quem teve uma filha, Luísa Maria da Conceição. Morreu em 1853, aos 61 anos, quase cega e sem dinheiro. Quanto ao seu pai, ele nunca a perdoou por tê-lo desobedecido.

Mulheres à frente de seu tempo

O nome de Maria Quitéria de Jesus (1792-1853) não pode faltar em nenhuma antologia que se propõe a resgatar grandes personagens femininos da História do Brasil. Como o recém-lançado Independência do Brasil — As Mulheres que Estavam Lá, organizado por Heloísa Starling e Antonia Pellegrino.

A obra apresenta a biografia de sete autênticas heroínas, como Hipólita Jacinta Teixeira de Melo (1748-1828), Bárbara de Alencar (1760-1832), Urânia Vanério (1811-1849), Maria Felipa de Oliveira (1800-1873), Maria Leopoldina (1797-1826) e Ana Lins (1764-1839), além de Maria Quitéria.

“As mulheres reunidas neste livro têm um traço em comum: elas assumiram protagonismo e decidiram agir politicamente em público, o espaço por excelência da política, um espaço rigorosamente proibido para uma mulher”, explica a historiadora e cientista política Heloísa Starling. “Seja no Brasil, seja na Europa, as mulheres atuavam confinadas em casa. Podiam ganhar a vida com o próprio trabalho ou, então, sustentar maridos. Mas, de jeito nenhum, podiam reivindicar voz pública, visibilidade e participação política”.

Coordenadora do Projeto República, núcleo de pesquisa, documentação e memória do Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Heloísa acrescenta que as sete personagens do livro levaram a sério um projeto de Independência para o Brasil. E viveram esse projeto de diferentes maneiras, partiram de patamares sociais desiguais e atuaram de forma diversa.

Algumas empunharam armas. Outras se engajaram no ativismo político. Outras, ainda, fizeram uso da palavra escrita no debate público. Mas, todas recusaram o lugar subalterno que lhes era reservado. “Até hoje, sabemos pouco ou quase nada sobre a história dessas mulheres e o modo como se posicionaram na cena pública brasileira durante a Independência. Seu protagonismo continua ignorado. A vedação ao acesso da mulher ao mundo público foi de tal forma enraizada na sociedade que se mantém no centro da desigualdade de gênero até hoje. Para as mulheres brasileiras, a fronteira da política foi e continua sendo a mais difícil de transpor”.

Resumo biográfico de Maria Quitéria

Maria Quitéria de Jesus (Feira de Santana, 1792 — Salvador, 21 de agosto de 1853) foi uma combatente baiana da Guerra da Independência do Brasil. Desde 1996, é a patrona do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro e, desde 2018, integra o Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.

Em 1821, fugiu da fazenda em que morava com a família e, sob a identidade masculina, alistou-se no Batalhão de Voluntários do Príncipe, também conhecido como Batalhão dos Periquitos, que estava estacionado na Vila de Cachoeira. Atuou no regimento de artilharia e foi alçada a 1ª cadete pelo general Pedro Labatut. Após a guerra, foi condecorada com a Imperial Ordem do Cruzeiro pelo imperador Pedro I do Brasil, que também lhe concedeu um soldo vitalício de alferes.

É reconhecida por ser a primeira mulher a assentar praça numa unidade militar das Forças Armadas Brasileiras, apesar de ter havido outras combatentes nas mesmas trincheiras.

Em 26 de julho de 2018, por meio da lei federal 13 697, teve seu nome incluído no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, junto a Sóror Joana Angélica, Maria Filipa de Oliveira e João das Botas (João Francisco de Oliveira), figuras da Guerra de Independência do Brasil na Bahia.

*Com informações da Agência Brasil e de BBC News Brasil, da BBC Brasil.

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Maria Quitéria cortou o cabelo, vestiu a farda militar do cunhado e, sob a alcunha de ‘Soldado Medeiros’, lutou na independência do Brasil.

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