“A cada morte, aumenta a raiva e a violência”, diz refugiada do Irã na Turquia

À medida que a repressão aumenta no Irã, são cada vez mais raros os testemunhos que conseguem ser ouvidos fora do país. A RFI entrevistou uma jovem refugiada iraniana na Turquia. Ela faz questão de levar adiante a palavra de seus parentes que participam das manifestações no Irã.

RFI: Você escolheu nos confiar seu testemunho usando o nome fictício de Mahsa. Por que é importante para você manter o anonimato?

Mahsa: Por que o anonimato é importante para mim? Ou, por que é importante para qualquer iraniano? No Irã, vivemos em um ambiente sufocante devido a um sistema de inteligência muito poderoso. Eu moro no exterior, mas toda a minha família ainda está no Irã. As autoridades podem usar todos os meios contra mim se eu fizer algo em meu nome. Especialmente porque se diz que a Turquia é o tribunal oculto da República Islâmica. Eles não vão necessariamente me matar, mas eles sabem como usar o terror. Eles aniquilam a pessoa, sua personalidade, sua dignidade. É assustador… realmente.

Vários de seus parentes se juntaram a você na Turquia nos últimos dias. Qual a situação que eles descreveram para você?

A situação é única, endureceu e mesmo piorou. Agora há mobilizações em qualquer rua, qualquer bairro, mesmo em uma pequena cidade ou vilarejo. Mesmo das varandas de suas casas as pessoas gritam slogans. É a primeira vez que isso acontece no Irã. Antes, as pessoas se encontravam em uma rua específica em um horário específico. Mas agora há muitos pequenos grupos em todos os lugares, tudo está fragmentado. É por isso que o regime não pode controlar o movimento facilmente. Então, eles vão para onde estão os maiores grupos.

Mas há algo que permanece na história desse regime, é que a repressão passa por todos os meios. Eles infundem medo e cercam as pessoas socialmente, economicamente, politicamente, culturalmente. Um dia, eles usam balas de borracha contra os manifestantes e depois munição real e há mortes. Na cidade de Mahabad, por exemplo, eles usam tanques. Isso sem falar nas prisões nas ruas. Eles também entram nas casas das pessoas. Se eles sabem que um manifestante mora lá, eles entram em sua casa.

Diante do endurecimento da repressão, os manifestantes também estão se tornando mais violentos?

Sim, com certeza, é mais violento do que antes. As pessoas que vão às ruas estão muito mais irritadas do que antes. Comemoramos o 40º dia de luto de Mahsa Amini, depois o de Sarina e depois o de tal e tal pessoa. A cada nova morte, a raiva aumenta e com ela, a violência. A forma como as coisas estão acontecendo faz com que o regime reacenda ainda mais o fogo dessa violência.

No Irã, a liberdade de expressão não existe, temos casamentos forçados de menores, corrupção estatal muito presente, suborno, peculato. A religião se junta com a política. É algo muito perigoso. A cultura do povo iraniano é negada.

Em uma palavra, devo dizer: nós iranianos temos o direito de ter líderes melhores do que estes. Não devemos deixar que nossa raiva nos transforme. Essa raiva que habita as mães de hoje, as manifestantes. Tudo é sofrimento, tudo se transforma em tragédia em nossa história. Tiraram a nossa dignidade e o nosso respeito.

Você acha que a sociedade iraniana está pronta para essa grande mudança?

É uma pergunta muito difícil. A própria Revolução Francesa levou tempo para dar frutos e chegar ao que o país é hoje. Mas espero que possamos dar os primeiros passos. Eu gostaria que houvesse um catalisador, uma consciência na sociedade que pressione para que as coisas aconteçam, para que a abertura aconteça.

“40 estrangeiros presos”

Em dois meses de manifestações no Irã, “40 estrangeiros” foram presos e são acusados ​​de envolvimento nos “motins”, informou a justiça iraniana nesta terça-feira (22). O país vem sendo palco de protestos desde a morte da jovem curda iraniana Mahsa Amini. O Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas (ACNUDH) denuncia o “endurecimento” da repressão no país.

Amini morreu em 16 de setembro, três dias depois de ter sido presa pela polícia de costumes do Irã, acusada de violar a exigência do véu para mulheres na República Islâmica. Desde então, as autoridades denunciam que os protestos são incentivados pelo Ocidente e já prenderam milhares de pessoas.

“Quarenta estrangeiros implicados nos recentes distúrbios foram presos”, informou o porta-voz do Judiciário, Massoud Sétayechi, sem especificar a nacionalidade dos presos, as datas e locais das prisões. No início de outubro, as autoridades iranianas já haviam confirmado as prisões de nove estrangeiros, cidadãos da Polônia, Itália e França, todos acusados ​​de ligações com os movimentos de protesto.

Sétayechi também indicou que “vereditos contra 2.432 pessoas” acusadas de envolvimento nos “motins” foram pronunciados até agora no Irã. Ele não especificou as condenações, mas as sentenças proferidas para todos esses réus podem sofrer apelações no Supremo Tribunal.

O Tribunal Revolucionário de Teerã já condenou à morte seis réus considerados culpados de serem “mohareb” (“inimigo de Deus” em persa)” ou por “corrupção na terra”, em conexão com as manifestações no Irã.

ONU denuncia aumento da repressão

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Direitos Humanos (ACNUDH) denunciou, nesta terça-feira, o “endurecimento” da repressão no Irã, onde mais de 300 pessoas, incluindo crianças, foram mortas desde o início das manifestações.

O porta-voz Jeremy Laurence descreveu uma “situação crítica” na República Islâmica, abalada por uma onda de protestos desde a morte de Mahsa Amini. “O número crescente de mortes nos protestos no Irã, incluindo duas crianças no último fim de semana, e o endurecimento da resposta das forças de segurança sublinham a situação crítica do país”, afirmou durante uma coletiva de imprensa.

Ele também expressou preocupação com a situação em cidades de maioria curda, onde mais de 40 pessoas foram supostamente mortas pelas forças de segurança na semana passada.

O número total de mortos subiu para 416 desde o início do movimento de protesto, de acordo balanço da ONG Iran Human Rights (IHR), nesta terça-feira. Entre os mortos há 51 crianças e 21 mulheres, segundo o IHR, com sede em Oslo.

Nos últimos sete dias, a maioria das vítimas são das regiões curdas do oeste do Irã, para onde Teerã enviou reforços armados à medida que os protestos aumentam.

*Com informações da RFI.


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