Santo Amaro sedia 4ª edição do ‘Festival Paisagem Sonora’ com programação gratuita

Depois de cinco anos, o Festival Paisagem Sonora – Formação, Gestão e Difusão da Música está de volta a Santo Amaro. De 17 a 19 de novembro de 2022, sua quarta edição transformará a cidade em um grande palco para conferências, atividades de formação, intervenções urbanas e shows que colocam em foco a música como representação de culturas, afirmação identitária, compartilhamento de saberes, diálogos interculturais e inovação tecnológica. O evento busca não apenas intervir, mas, sobretudo, revelar as paisagens e riquezas sonoras do Recôncavo da Bahia, colocando história, ancestralidades e manifestações populares em diálogo com a contemporaneidade e as tendências mundiais. A programação, totalmente gratuita, inclui 12 mesas de debate, um curso sobre direitos autorais, três oficinas, lançamentos e 12 shows.

“O Recôncavo da Bahia se constitui como uma das forças motrizes de ancestralidade, sobretudo pelo seu caráter polissêmico de sonoridades e ecologia acústica. Não por acaso, parte da fortuna da escrita da Música Popular Brasileira tem como forte índice o som fundamental afro-diaspórico produzido neste território de identidade”, contextualiza Danillo Barata, idealizador do projeto, que responde pela coordenação geral junto a Daniele Canedo, dupla que ainda se une a Cláudio Manoel e Ellen Mello na curadoria, todos servidores do Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (Cecult/UFRB), que realiza o evento junto à Fundação Nacional de Artes (Funarte). “Há uma complexa paisagem sonora que precisa ser estudada de forma mais sistemática em um momento importante de reflexão, mapeamento, crítica, descoberta e incentivo de novas iniciativas, no campo da música, emanadas desse Recôncavo expandido”, completa Danillo.

A proposta do festival nasceu, em 2013, como uma homenagem ao pesquisador canadense Murray Schafer, criador das expressões “ecologia acústica”, “esquizofonia”, “som fundamental” e “paisagem sonora” – conceito que se refere à análise do universo sonoro que nos rodeia. Neste ano, o evento reverencia a viola machete como elemento singular e destaca sua repercussão nas formas de apresentação do samba chula, afro-sambas, pagodão e em outras sonoridades contemporâneas que têm matrizes nos elementos do samba de roda da região.

O Festival Paisagem Sonora faz parte do Paisagem Sonora – Programa de Promoção da Música do Recôncavo da Bahia, que objetiva promover a valorização da diversidade musical contemporânea a partir das tradições originárias de matrizes africanas e indígenas da música. Desde maio, o Programa, que tem apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa e à Extensão (FAPEX) e da Pró-Reitoria de Extensão (Proext), vem desenvolvendo iniciativas de formação, qualificação profissional e difusão, de modo a contribuir para a promoção do intercâmbio entre fazedores da cultura, artistas, profissionais da música e a comunidade acadêmica.

Um resultado deste processo foi a “Ocupa Ação Criativa”, realizada em julho, que, entre variadas atividades, promoveu a instalação do “Códice Brasil-África”, um painel de 70 metros por 2 de altura, do artista visual J. Cunha, que permanece enfeitando o pátio do Pavilhão de Aulas do Cecult, que recebe boa parte da programação do Festival Paisagem Sonora.

Coletivo Xaréu

Uma das ações continuadas do Programa de Promoção da Música do Recôncavo da Bahia é o Coletivo Xaréu. Criado em 2011 por professores da UFRB, atualmente se mantém como uma atividade de extensão que reúne mais de 20 músicos, cantores e beatmakers, dentre estudantes bolsistas e voluntários, sob coordenação do maestro Sólon Mendes. Na prática do ensino-aprendizagem, sua proposta é criar um repertório de referências da musicalidade do Recôncavo Baiano – como as filarmônicas, o candomblé, o samba de roda, o pagode e a sofrência –, conectado com timbragens, arranjos e grooves da música urbana e contemporânea do mundo, numa estética sonora híbrida. O repertório dialoga ainda com elementos da música pop e até com a eletrônica, incluindo beats do trap e acid jazz, por exemplo. Boa parte das composições e arranjos é autoral, fruto dos laboratórios que ocorrem de maneira conjunta aos ensaios, que acontecem regularmente duas vezes por semana: um permanente laboratório de experimentação. “O diálogo entre os saberes acadêmicos e populares representa a maneira como está estruturado este projeto. Um dos pressupostos pedagógicos que permeiam o Coletivo Xaréu é de que a teoria seja uma reflexão da prática”, detalha Sólon Mendes.


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