Livro ‘Trilogia da Chacina’, do dramaturgo Daniel Arcades, é lançado em Salvador

Salvador, fevereiro, o ano é 2015, e a cidade ficaria estarrecida com a morte de 12 jovens na localidade da Vila Moisés, no triste episódio que ficou conhecido como “Chacina do Cabula”. Naquele mesmo ano, nos noticiários nacionais, o número de ocorrências de chacinas no Brasil chamava atenção, eram mais de dez, somente em São Paulo. O cenário assustador de violência tornou-se um grito engasgado para o jovem dramaturgo baiano Daniel Arcades, à época vivendo os seus 20 e poucos anos. Ali nascia o que mais tarde seria a “Trilogia da Chacina” e viria a compor o seu livro de estreia, lançado em 2022.

Primeiro livro do escritor, ator, dramaturgo e diretor Daniel Arcades, ‘Trilogia da Chacina’ reúne textos de três peças teatrais já encenadas em Salvador: “Erê”, que celebrou, em 2015, os 25 anos do Bando de Teatro Olodum; “As balas que não dei ao meu filho” e “Antônia”. A obra traz, além dos textos, registros fotográficos das montagens originais dos espetáculos e comentários das equipes de produção. O lançamento acontece no dia 19 de dezembro, às 18h30, na Livraria LDM do Shopping Bela Vista (piso L2), em Salvador.

“Registrar essas peças é registrar um pouco do que tem sido produzido na última década no Teatro de Salvador, e é também uma forma de contribuir com o nosso pensamento social. O registro possibilita que essas obras possam circular por outros espaços, possam caminhar e serem conhecidas fora da época de suas montagens”, comenta o autor Daniel Arcades.

Três espetáculos

“São peças muito fortes pra mim, e escritas no mesmo momento. Três olhares diferentes, mas convergentes, sobre o que é para a população negra, para o nosso povo, para a nossa história, a lógica genocida de uma chacina”, revela Arcades.

“Erê”, peça encomendada ao dramaturgo para a celebração de 25 anos do grupo teatral Bando do Teatro Olodum, está em cartaz até hoje. O espetáculo fala sobre as perspectivas da criança negra e a formação dessa infância na cidade de Salvador, chamando atenção sobre como os adultos precisam estar atentos a isso, e também para a responsabilidade do Estado nesse contexto.

“As balas que não dei ao meu filho” é um espetáculo fruto do processo de criação do antigo grupo de teatro do autor, o Núcleo Afro-brasileiro de Teatro de Alagoinhas (Nata), que conta a história de um policial negro periférico que é conduzido a pensar com um olhar de privilégio, pelo fato de ter um emprego e ser um assalariado em uma realdade de tanto desemprego que, ao mesmo tempo, é colocado em confronto direto com seu próprio povo a todo momento, com a defesa de um Estado que também não olha pra ele.

“Antônia”, terceira peça do livro, encenada em 2016, foi criada a partir de um desejo da diretora Sanara Rocha de montar Antígona para as ruas, um clássico grego do teatro ocidental, que recolocada na Salvador atual, passa a ser Antônia e conta a história de uma mulher soteropolitana que vai de encontro ao Estado para ter o direito de enterrar o seu irmão, um ativista negro.

“‘Trilogia da Chacina’ é um início de uma coragem de publicar peças. Eu sempre achei peça teatral algo muito inclinado à efemeridade, sujeito à transformação, e por isso eternizá-las no papel sempre foi tão difícil, mas entendo também que é necessário por uma questão de memória”, explica o autor.


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