Salvador 474 anos: Ascensores fazem parte da história e geografia da cidade

Administrados pela Secretaria de Mobilidade de Salvador (SEMOB), os planos inclinados e os elevadores urbanos, com destaque para o Elevador Lacerda, são importantes equipamentos para a locomoção diária de soteropolitanos e turistas, funcionando como uma solução prática para a falha geológica que divide a cidade em Alta e Baixa.

Pesquisadores afirmam que o primeiro guindaste baiano já funcionava na primeira metade do século XVII. Mais tarde, gravuras da cidade do século XVIII mostram a existência de três guindastes: o da Praça, situado mais ou menos no ponto do atual Elevador Lacerda, o dos Jesuítas, situado no sítio do Plano Inclinado Gonçalves e o dos Carmelitas, na região do Pilar e Santo Antônio Além do Carmo.

Esses guindastes faziam o transporte de mercadorias a contrapeso, por meio de dois carrinhos que trafegavam de maneira desencontrada. Cada viagem custava 40 vinténs, 20 vinténs para o carrinho de baixo e 20 para o carrinho de cima. Anos depois, os guindastes foram substituídos pelos atuais Elevador Lacerda, Plano Inclinado Gonçalves e Plano Inclinado Pilar, respectivamente.

O professor de História da Bahia, Murilo Mello, conta que a partir da segunda metade do século XIX, as feições da cidade começaram a mudar. “O mais emblemático dos ascensores, o Elevador Lacerda, foi inaugurado em 8 de dezembro de 1872, dia da padroeira da Bahia, Nossa Senhora da Conceição. Por esse motivo, inicialmente ele era chamado de Elevador da Conceição. Popularmente, o equipamento também era chamado de Elevador Parafuso”, diz.

Mello ressalta ainda que o Elevador Lacerda foi o primeiro elevador público e também o mais alto do mundo. Inicialmente, ele funcionava por um sistema hidráulico. Em 1896, passou a ser chamado oficialmente de Elevador Lacerda, em homenagem ao seu idealizador, Antônio Lacerda; em 1906, ele foi eletrificado e, em 1930, passou por uma modernização para a ampliação da altura (de 63 metros para os atuais 72 metros), construção de uma nova torre e ampliação do número de cabines, seguindo um padrão arquitetônico de Art Déco. O Elevador Lacerda é patrimônio histórico baiano e brasileiro, tombado pelo Iphan em 2006.

Charriot

Já a construção do Plano Inclinado Gonçalves, em um formato mais moderno, foi iniciada em 1874, dois anos após a inauguração do Elevador Lacerda. “Nesse primeiro momento, o Plano Inclinado seguiu uma linha charriot (carruagem em tradução livre do inglês). Essa linha chegou a ser puxada por animais”, informa Mello.

Primeiro tentou-se dar o nome de Princesa Isabel ao Plano Inclinado Gonçalves, mas a inauguração do sistema mais moderno foi em 1889, ano da Proclamação da República. Então, o novo regime não aceitou o nome monarquista e o nome foi alterado para Plano Gonçalves, em referência a Manuel Francisco Gonçalves, comendador e diretor da companhia que construiu o ascensor. O Plano Inclinado Gonçalves foi eletrificado em 1909, dois anos após a ação ser realizada no Lacerda.

Cartão postal

Além do Elevador Lacerda, um dos principais cartões postais de Salvador, o Plano Inclinado Gonçalves também atrai turistas, que se encantam com o meio de transporte diferenciado e a vista para a Baía de Todos-os-Santos. O gestor comercial Mark Machado, de 32 anos, veio de Curitiba (PR) para conhecer Salvador e utilizou o ascensor para ter acesso ao Centro Histórico. “É parecido com o Lacerda, só que mais antigo e bem diferente. Achei bem interessante”.

A vendedora Larissa Kelli Gomes, de 24 anos, trouxe o namorado Rones Donizete, de 26 anos, para conhecer Salvador. Rones é paulista e Larissa, apesar de baiana, mora em Campinas desde pequena e ainda não tinha conhecido um dos planos inclinados. “Eu gostei muito. No início fiquei com medo, mas depois me acostumei. Tem uma vista muito bonita”, contou.

Comparando com a estrutura de transporte de onde mora, em São Paulo, Rones lembrou que não há plano inclinado lá, há apenas teleférico e o valor cobrado é mais caro. “O plano é um meio de transporte rápido, confortável, pois tem onde sentar, e, além de tudo, barato. É preciso apenas 15 centavos para fazer a viagem”, opinou.

Ascensorista do Plano Inclinado Gonçalves, Emerson Correia, de 34 anos, conta que é gratificante trabalhar no local. “Eu trabalho diariamente, durante seis horas, e com plantões aos finais de semana no Elevador Lacerda. É um trabalho tranquilo. Conhecemos pessoas novas, turistas e fazemos amigos. Todos os dias alguém sempre puxa um assunto, conta um caso. Tem gente que chega aqui estressado, desabafa sobre a política e sobre a vida pessoal e sai melhor”, revela.

Balança do Taboão

Importante para a história de Salvador, o Elevador do Taboão foi o terceiro ascensor a ser inaugurado, em 1896, no período da república, segundo lembra o professor Murilo Mello. “O elevador foi batizado à época de Balança do Taboão e é um símbolo de modernização do estado, pois teve uma inovação estética quando de sua construção. O equipamento tem uma torre em régua de ferro, chumbada e cruzada, diferentemente dos outros elevadores existentes, com estrutura simétrica”, destaca.

O Elevador do Taboão foi desativado em 1959 e só foi reativado em setembro de 2021, seis décadas depois, após recuperação promovida pela administração municipal. Climatizado e panorâmico, ele liga o Pelourinho ao Comércio. O projeto passou por um processo de adequação do maquinário, mas com a preservação da história.

Pilar e Liberdade

Implantado na região do Centro Histórico em 1897, no local do antigo Guindaste dos Carmelitas – um dos primeiros ascensores instalados na cidade, em 1610 -, o Plano Inclinado do Pilar faz a ligação entre os bairros de Santo Antônio Além do Carmo, na Cidade Alta, à Rua do Pilar, na Cidade Baixa. Assim como o Gonçalves, possui mecanismos e maquinário importados da Alemanha. Teve as atividades paralisadas entre os anos de 1984 e 2006, e a reforma mais recente foi realizada em 2015.

O mais novo dos ascensores é o Plano Inclinado Liberdade-Calçada (PILC), inaugurado em 1981 e que liga um bairro bastante povoado – a Liberdade, na parte alta da cidade – com a região que engloba o Terminal Marítimo de São Joaquim, com ferries que fazem a travessia para a Ilha de Itaparica, e a Estação da Calçada, ligação férrea que seguia até o Subúrbio de Salvador.

Passagem e funcionamento

O Elevador Lacerda funciona diariamente, inclusive aos finais de semana e feriados, sendo que de segunda a sexta-feira, o horário de funcionamento é das 7 às 22 horas e aos finais de semana e feriados, das 7 às 19 horas.

O Plano Inclinado Gonçalves funciona de segunda a sexta-feira, das 8 às 18 horas e fecha aos fins de semana e feriados; o Pilar funciona de segunda a sexta-feira, das 7 às 17 horas e fecha aos finais de semana e feriados; e o Liberdade/Calçada funciona de segunda a sexta-feira, das 6h às 18h, sábado, das 7h às 13h, e fecha aos domingos e feriados. O Elevador do Taboão funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h e fecha aos finais de semana e feriados.

O valor do transporte no Elevador Lacerda e Plano Inclinado Gonçalves é R$0,15 centavos. Nos demais ascensores (Pilar, Taboão e Liberdade/Calçada), a passagem é gratuita.

Número de passageiros

Em 2022, os ascensores de Salvador realizaram cerca de 4,2 milhões de transportes de pessoas. Nos dois primeiros meses de 2023, os quatro ascensores – Elevador Lacerda e Planos Inclinados Gonçalves, Pilar e Liberdade/Calçada – já fizeram 954 mil transportes de pessoas. Diariamente, o Elevador Lacerda transporta 6.6 mil pessoas, em média; o Plano Inclinado Gonçalves, 4.3 mil pessoas; o Pilar 333 pessoas; e o Liberdade/Calçada, 4,3 mil. O Elevador do Taboão, reativado pela Prefeitura em setembro de 2021.


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