Nosso trabalho é passar para as próximas gerações o impulso de lutar pela liberdade, diz Angela Davis na ABRALIC em Salvador

Gina Dent, Angela Davis, Denise Carrascosa e Feibriss Cassilha participaram do 18º Congresso Internacional da Associação Brasileira de Literatura Comparada.
Gina Dent, Angela Davis, Denise Carrascosa e Feibriss Cassilha participaram do 18º Congresso Internacional da Associação Brasileira de Literatura Comparada.

O feminismo abolicionista e a luta anti-prisional foram temas abordados pela filósofa e professora estadunidense Angela Davis, uma das presenças do 18º Congresso Internacional da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic), na mesa de debates realizada no dia 11 de julho de 2023, na Faculdade de Direito da UFBA, Salvador, que teve como tema “Abolicionismo. Feminismo. Já.”, mesmo título do livro que foi lançado no Brasil pela editora Companhia das Letras, com autoria de Davis em parceria com Gina Dent, Beth Richie e Erica Meiners.

Gina Dent, professora da Universidade da Califórnia e editora do Black Popular Culture, também participou da mesa que foi composta pela professora Denise Carrascosa, do Instituto de Letras da UFBA, e teve a mediação da professora Feibriss Cassilhas. O evento contou com a presença da ministra da Igualdade Racial do Brasil Anielle Franco, que acompanhou os debates realizados com a participação do público, que lotou o auditório.

“Quando começamos a trabalhar sobre abolicionismo carcerário, talvez há 30 anos atrás, nós nunca imaginamos que nós teríamos a oportunidade de ver a abolição entrando no discurso público”, contou Angela Davis, observando que “as pessoas começaram a reconhecer que o racismo não diz respeito a atitudes individuais, mas diz respeito às estruturas de todos os aspectos da sociedade”.

“Tento pensar como as pessoas que eram escravizadas imaginavam a liberdade, porque a luta pela liberdade já estava lá desde o princípio. Nós somos as beneficiadas por essas pessoas que há centenas de anos imaginavam um mundo diferente, um tipo de mundo diferente, e sabiam que não poderiam vivenciar esse mundo, mas que assim mesmo lutaram de maneira apaixonada em prol da liberdade”, acrescentou a filósofa.

O padrão das pessoas encarceradas em todo o mundo, composto em grande maioria por pessoas negras, foi constatado por Gina Dent, que observa a expressão do capitalismo racial no sistema prisional.

“Seria impossível pensar em confrontar o racismo sem confrontar o sistema carcerário”, avalia. “As pessoas de peles mais escuras são aquelas que são frequentemente encarceradas e isso é verdade, não importa qual país tenhamos visitado”, ressaltou Dent, observando que “as prisões não são o mapa daquelas pessoas que cometeram crimes, as prisões contêm aquelas pessoas que foram criminalizadas”.

Por outro lado, conforme apontou Dent, “há muitas pessoas que cometem violações e nunca são encarceradas, às vezes elas lideram os nossos países, às vezes elas têm outros cargos”.

Angela Davis também falou sobre a luta contra o racismo e o fascismo nos Estados Unidos. Defendeu que é necessário pensar em alternativas mais amplas para avançar em direção à abolição carcerária. Conforme argumentou, isso não significa ficar livres de repente das prisões, mas encontrar alternativas que não estejam baseadas em violência e que a prisão não seja a única forma para reparar danos causados.

“Quais são as alternativas para as prisões? Nós não estamos pensando em prisões melhores, estamos pensando em residências e programas de saúde melhores, numa sociedade socialista melhor”, afirmou.

Davis lembrou que o Brasil é o país que tem o maior número de pessoas de origem africana fora da África. Destacou a força da cultura brasileira, e emergência do feminismo negro no país e a liderança das mulheres negras no candomblé. No seu entendimento, o feminismo abolicionista precisa ser também interseccional e internacional, e estabelecer conexões com todas as pessoas que são feridas pelo sistema de capitalismo racial.

“Nós sabemos que o feminismo negro nos instiga a nos responsabilizarmos pelos danos históricos causados pelo colonialismo e pelo capitalismo. O capitalismo é um capitalismo racial. Não haveria capitalismo se não houvesse ocorrido o tráfico negreiro e a instituição escravocrata”, acrescentou ela.

“Eu acho que o trabalho que nós deveríamos estar fazendo hoje é o trabalho de passar para as próximas gerações esse impulso de lutar em prol da liberdade. De tal maneira que todas nós possamos saber um dia o que é ser livre”, concluiu Davis.

Em sua participação, a professora Denise Carrascosa denunciou a situação de mulheres em cárcere que sofrem graves violações de direitos, torturas e flagrantes forjados. Criticou o silêncio da sociedade e de suas instituições diante dessas situações recorrentes que são do conhecimento de todos.

“É preciso romper com esse pacto de silêncio”, defendeu, argumentando que “não é possível mais nos calarmos em relação às torturas que nossas irmãs vivem diuturnamente em todos os lugares do Brasil, inclusive nessa cidade”.

Após o encontro, Angela Davis e Gina Dent seguiram para o Conjunto Penal Feminino do Complexo Penitenciário Lemos Brito, em Salvador, onde se encontraram com mulheres em situação de cárcere que escrevem poesias abolicionistas e realizaram um sarau poético no ano passado. A iniciativa deu origem ao documentário “Firminas em Fuga”, uma homenagem ao bicentenário de nascimento da escritora abolicionista Maria Firmina dos Reis, desenvolvido pelo Coletivo Corpos Indóceis e Mentes Livres, que construiu uma biblioteca há dez anos nesta unidade prisional para fins de redução do tempo de cumprimento de pena pela leitura.


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