Guerra às drogas é um dos elementos que explica onda de violência na Bahia; Marginais fortemente armados evidencia guerra civil não declarada

Agentes da DHPP da Polícia Civil da Bahia.

A Bahia enfrenta uma onda de violência que coloca em foco a política de guerra às drogas. Especialistas destacam a necessidade de uma revisão desse modelo e apontam para investimentos em inteligência para a prevenção do crime, além de políticas públicas que melhorem as condições de vida e proporcionem maior acesso à educação e cultura como estratégia para evitar o envolvimento das pessoas com o crime organizado.

No mês de setembro de 2023, aproximadamente 60 pessoas perderam a vida em confrontos com as forças de segurança, principalmente em bairros periféricos de Salvador. Isso incluiu a morte de um policial federal.

Dudu Ribeiro, diretor-executivo da ONG Iniciativa Negra e coordenador da Rede de Observatórios da Segurança na Bahia, apontou que uma reorganização das organizações criminosas, antes pulverizadas no estado, levou a uma disputa por território, intensificada pela migração de facções do Sudeste. Isso resultou em novos conflitos.

Ribeiro ressalta que o modelo de segurança militarizado, com o aumento de batalhões especializados de polícia militar, contribui para a letalidade. Para ele, é necessário abandonar a ideia de que mais violência implica em maior segurança.

A falta de diversidade nas políticas de segurança é outra preocupação. Ribeiro enfatiza a importância de envolver outras secretarias, como educação, cultura e direitos humanos, no debate sobre segurança pública, a fim de evitar uma abordagem exclusivamente militarizada.

Para especialistas, a guerra às drogas no Brasil também justifica a manutenção da opressão racial sobre a população negra. A ausência de políticas públicas, como educação, saúde e saneamento, em bairros periféricos, favorece o recrutamento de pessoas por facções criminosas.

A letalidade policial na Bahia levou a Anistia Internacional Brasil a criticar o governo estadual. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2022, houve 1.464 mortes decorrentes de intervenções policiais no estado.

Marginais fortemente armados evidencia guerra civil não declarada

A onda de violência na Bahia é um fenômeno complexo e multifacetado, mas a política de guerra às drogas e a presença de marginais fortemente armados são dois elementos interconectados que desempenham um papel significativo na explicação desse cenário. Eles indicam não apenas uma crise de segurança, mas também uma espécie de guerra civil não declarada que assola o estado.

A Política de Guerra às Drogas como Fator Prolongador da Violência:

A política de guerra às drogas, historicamente adotada pelo Brasil, foca na repressão ao tráfico de drogas através de medidas punitivas, como a prisão de traficantes e usuários, e operações policiais militares. No entanto, esse modelo tem se mostrado ineficaz e contraproducente por várias razões:

  1. Fragmentação das Organizações Criminosas: Em vez de eliminar as organizações criminosas envolvidas no tráfico de drogas, a política de guerra às drogas muitas vezes as fragmenta em facções menores e mais violentas. A disputa por território entre essas facções resulta em confrontos armados nas comunidades.
  2. Superencarceramento: A prisão em massa de pequenos traficantes e usuários de drogas superlota o sistema carcerário, sem atacar as raízes do problema. Além disso, muitos desses indivíduos acabam se envolvendo em atividades criminosas dentro das prisões, contribuindo ainda mais para a violência.
  3. Criminalização de Jovens em Comunidades Carentes: A falta de oportunidades econômicas e a presença do tráfico de drogas levam jovens de comunidades carentes a se envolverem precocemente no mundo do crime, alimentando um ciclo de violência.

Marginais Fortemente Armados como Sintoma de uma Guerra Civil Não Declarada

A presença de marginais fortemente armados na Bahia, incluindo o uso de armas de fogo de grosso calibre como fuzis, é um sintoma alarmante da gravidade da situação. Isso evidencia uma escalada da violência para níveis que se assemelham a uma guerra civil não declarada. Alguns pontos a serem considerados são:

  1. Poderio Bélico Crescente: A apreensão frequente de fuzis e armamento pesado pelas autoridades de segurança demonstra que as organizações criminosas estão se armando cada vez mais, tornando os confrontos com as forças de segurança e entre facções ainda mais letais.
  2. Confrontos Armados nas Comunidades: Os tiroteios frequentes em áreas urbanas, especialmente nas periferias de Salvador, têm deixado um rastro de mortes e feridos, afetando diretamente a vida das comunidades locais. Esses confrontos se assemelham a combates típicos de zonas de guerra.
  3. Ameaça à Ordem Pública: A presença de grupos armados que atuam praticamente à margem da lei representa uma ameaça direta à ordem pública e à segurança da população. Isso cria um ambiente de medo e instabilidade, limitando as atividades cotidianas das pessoas e minando a confiança nas instituições de segurança.

A combinação desses fatores — a política de guerra às drogas e a presença de criminosos fortemente armados — resulta em um ciclo vicioso de violência que parece estar fora de controle. Enquanto a repressão violenta é adotada como estratégia predominante, a tendência é de que a violência continue a se intensificar.

Para enfrentar efetivamente essa crise, é fundamental que o Estado repense sua abordagem à segurança pública e à política de drogas. Isso inclui investir em políticas de prevenção, redução de danos e reabilitação de dependentes químicos, bem como combater a corrupção policial e promover a transparência nas instituições de segurança. A busca por soluções eficazes e de longo prazo é crucial para pôr fim a essa guerra civil não declarada e restaurar a paz e a segurança na Bahia.


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