Em discurso nesta sexta-feira (27/10/2023), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva expressou profunda preocupação com o conflito em curso no Médio Oriente, particularmente a crise de Gaza. Ele rotulou o desejo do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, de eliminar Gaza como “insanidade”. O Presidente Lula, durante um café da manhã com jornalistas no Palácio do Planalto, defendeu veementemente a ideia de acabar com o poder de veto detido por membros selecionados do Conselho de Segurança das Nações Unidas, visando uma posição mais forte da ONU sobre o conflito israelo-palestiniano.
“O ato do Hamas foi de facto um ato de terrorismo. Não é possível lançar um ataque, matar inocentes e raptar pessoas sem pesar as consequências do que se segue. Porque agora, o que vemos é a insanidade do primeiro-ministro israelita, querendo erradicar Gaza, aparentemente esquecendo que Gaza não é habitada apenas por soldados do Hamas, mas também por mulheres e crianças, que são as principais vítimas desta guerra”, disse Lula.
O Presidente Lula enfatizou que o Brasil não reconhece oficialmente o Hamas como organização terrorista, alinhando sua postura com as avaliações do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
“Nossa posição é clara. Em qualquer guerra, não há apenas um culpado, nem um culpado a mais. O Brasil criticou fortemente, assim como condenamos a Rússia por invadir o território ucraniano; isso fica evidente no comportamento do Brasil. Mas isso não significa sou obrigado a tomar partido no conflito. Quero estar ao lado daqueles que buscam a paz”, afirmou Lula, traçando um paralelo com o conflito no Leste Europeu e reafirmando a condenação do Brasil às ações do Hamas.
Ele sublinhou ainda a natureza mutável da guerra moderna, onde os combatentes lançam ataques à distância, muitas vezes sem saber onde os seus mísseis irão pousar ou quem irá morrer.
Em 7 de Outubro, a Faixa de Gaza controlada pelo Hamas lançou um ataque surpresa com mísseis contra Israel e iniciou uma incursão de combatentes armados no terreno, resultando em baixas civis e militares, bem como no rapto de centenas de cidadãos israelitas e estrangeiros. Em resposta, Israel bombardeou várias infraestruturas do Hamas em Gaza e impôs um bloqueio total ao território, cortando o fornecimento de água, combustível e electricidade.
O conflito já provocou milhares de vítimas, feridos e deslocações em ambos os territórios. Em Gaza, a autoridade sanitária informou que mais de 7.300 palestinianos, incluindo 3.000 crianças, perderam a vida.
Lula ressaltou a importância do diálogo como caminho para uma solução pacífica para a região. Defendeu a criação de um corredor humanitário e revelou os seus esforços para facilitar as negociações.
“Se eu tiver informações de que o presidente de um determinado país é amigo do Hamas, ligarei para essa pessoa e direi: ‘Ei, diga ao Hamas para libertar os reféns. Por que manter inocentes em cativeiro? Libertá-los; há pessoas que precisam de medicação.’ Eu também diria ao governo israelense para abrir suas fronteiras para permitir a saída dos estrangeiros”, disse ele.
A libertação dos reféns, segundo a liderança do Hamas, depende de um cessar-fogo.
O presidente Lula continua preocupado com cerca de 30 brasileiros presos na Faixa de Gaza, aguardando um acordo entre Israel e Egito para abrir a fronteira sul do enclave.
“Alguém tem de defender a paz. É através do poder do diálogo que acredito que eventualmente seremos capazes de nos sentar à mesa de negociações. Como ser humano, não posso aceitar ver o número de crianças mortas numa guerra, com ninguém assume a responsabilidade por estas mortes. Todos se consideram mais inocentes, enquanto as crianças continuam a morrer”, acrescentou.
Ao longo do conflito, Lula envolveu-se com vários líderes mundiais, incluindo os de Israel, da Autoridade Palestiniana, do Irão, da Turquia, do Egipto, dos Emirados Árabes Unidos, da França, da Rússia, do Conselho Europeu e do Qatar. Segundo o presidente brasileiro, as discussões com líderes da China, Índia e África do Sul continuam na agenda.
Lula também abordou a questão do poder de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Ele mencionou a rejeição de uma proposta apresentada pelo governo brasileiro no Conselho de Segurança, que pedia pausas humanitárias nos ataques entre Israel e o Hamas. Entre os 15 votos, houve 12 votos a favor, duas abstenções, um da Rússia e um voto contrário dos Estados Unidos. Como os Estados Unidos são membros permanentes, seu voto resultou na rejeição da proposta brasileira.
Lula defendeu a eliminação do poder de veto dos cinco membros permanentes do conselho – China, França, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos – e a abertura do Conselho de Segurança a novos membros.
“É uma contradição que estes cinco países no Conselho de Segurança sejam aqueles que produzem, vendem e se envolvem em guerras. Essa é a contradição. É por isso que queremos mudança; queremos que vários países se juntem. Queremos democratizar o Conselho de Segurança da ONU porque tal como está, tem muito pouco valor”, explicou.
O líder brasileiro destacou que o diplomata brasileiro Oswaldo Aranha presidiu a sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas de 1947 que levou à criação do Estado de Israel. “Portanto, a ONU deveria agora ter a coragem de garantir o estabelecimento do Estado Palestino, para que vivam em paz e harmonia”, enfatizou.
O conflito Israel-Hamas está enraizado na disputa histórica sobre territórios que foram ocupados por vários povos, incluindo hebreus e filisteus, dos quais descendem israelitas e palestinianos.
Além dos membros permanentes, os atuais membros rotativos do Conselho de Segurança incluem a Albânia, o Brasil, o Equador, o Gabão, o Gana, o Japão, Malta, Moçambique, a Suíça e os Emirados Árabes Unidos. Para aprovar uma resolução é necessário o apoio de nove dos 15 membros, não havendo direito de veto a nenhum dos membros permanentes.
“A proposta brasileira não foi rejeitada; recebeu 12 votos. Foi vetada pela loucura do direito de veto concedido aos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, ao qual sou categoricamente contra. Isso é antidemocrático”, concluiu Lula.
A título pessoal, o presidente Lula comemorou nesta sexta-feira seu 78º aniversário. Ele mencionou que não haveria festividades, apenas um encontro com seus familiares mais próximos. Reconheceu o estado sombrio do mundo e expressou a sua tristeza ao ver as crianças sofrendo em Gaza, enfatizando que não era um momento para celebração.
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