Com a proximidade dos Jogos Olímpicos de Paris, um grupo de associações publicou um relatório nesta segunda-feira (03/06/2024) denunciando a remoção de sem-teto das ruas da capital francesa. Segundo o documento, mais de 12 mil pessoas foram afastadas de Paris, e esse movimento tem se acelerado à medida que a abertura do evento se aproxima. As entidades criticam o que consideram uma “estratégia de limpeza social” antes dos Jogos Olímpicos.
O relatório, divulgado pelo grupo Le Revers de la Médaille (O Outro Lado da Medalha), que reúne 80 associações caritativas, contabilizou 138 operações que desalojaram 12.545 sem-teto das ruas de Paris e seus arredores em um ano. Paul Alauzy, coordenador de vigilância sanitária da ONG Médicos do Mundo e porta-voz do coletivo, destacou um aumento de 40% nas remoções em relação ao ano anterior. A maior parte dessas pessoas são migrantes e, entre elas, “o número de menores triplicou”, alertou Alauzy em entrevista à RFI.
As operações de expulsão, que se intensificaram com a aproximação da Olimpíada, atingiram seu ápice quando, a 100 dias dos Jogos, o maior acampamento da França foi desmantelado, resultando na remoção de 450 pessoas. Na semana passada, cerca de cem jovens migrantes foram retirados pela polícia francesa de um acampamento às margens do rio Sena. O coletivo denuncia a maneira como essas operações são realizadas, com o envio de policiais para desmontar as barracas dos migrantes e desabrigados, ou simplesmente para afastar os sem-teto dos bairros mais turísticos.
“Ao invés de enviar a polícia, essas pessoas deveriam ser acompanhadas por assistentes sociais”, propôs Alauzy.
A principal reclamação do coletivo diz respeito à falta de opções permanentes para essas pessoas afetadas pela precariedade. Muitas são deslocadas para cidades isoladas no interior do país, onde geralmente podem ficar apenas três semanas. Passado esse período e sem uma solução de moradia perene, muitos retornam às calçadas da capital.
“Há pessoas nas ruas e sabemos que os espaços públicos serão muito mais ocupados durante os Jogos Olímpicos”, admitiu Alauzy, em alusão aos 15 milhões de visitantes esperados. “Temos que propor a essas pessoas que estão nas ruas soluções dignas e perenes de alojamento”, concluiu, afirmando que “seria necessária a criação de 20 mil vagas para abrigar os sem-teto, das quais 7.000 na região parisiense”.
Além dos sem-teto, prostitutas e usuários de drogas também são visados pelas operações de remoção. O coletivo relata a perseguição de trabalhadores do sexo que atuam em parques nos arredores de Paris, como o bosque de Vincennes, onde mulheres africanas são pressionadas pela polícia a se esconderem entre os arbustos para evitar os controles de documentos.
“Elas são vistas como migrantes [ilegais] antes de serem vistas como vítimas”, aponta Alauzy.
O relatório também revela o aumento de operações para dispersar os usuários de drogas que consomem entorpecentes nas estações de metrô. As associações acusam as autoridades de quererem “tornar a pobreza invisível”.
Esta não é a primeira vez que operações desse tipo são denunciadas às vésperas de Jogos Olímpicos. Em 2013, a Anistia Internacional alertou sobre a situação de milhares de pessoas vítimas de remoção forçada devido aos preparativos da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016 no Brasil. A remoção de populações vulneráveis é uma prática recorrente em grandes eventos esportivos, levantando questões sobre os direitos humanos e a dignidade dos afetados.
*Com informações da RFI.








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