Quando escrevi Hermenêutica da Desigualdade refutei os retratos estáticos e preferi o ir e vir da linha do tempo. Se alguém fotografa o bom, vive daquele passado. Se fotografar o ruim, sofre com ele, em vez de dinamicamente fluir, cinema afora.
Estabeleceram-se algumas balizas. Em Algumas reflexões sobre histórias de vida, biografias e autobiografias, Lígia Maria Leite Pereira se reporta ao renovado interesse pela celebração das trajetórias individuais na tradição da literatura, da história e da política.
Trata-se do retorno do sujeito, após longo domínio de uma concepção de História oficial rankeana, que se fazia a despeito história dos homens: agora, “o indivíduo se coloca acima da comunidade e concebe sua vida como uma aventura e não como um destino pré-determinado a ser cumprido”, lembra Contardo Calligaris.
Além da sua pretensão mais ampla, de ser História, a história oral nos ajuda — em nossos viveres individuais e relacionais mais próximos — tanto ao fazermos transições quanto ao conectar significativamente pontos de uma trajetória (pessoal ou de outrem) bem como no lidar melhor com a confusão, incerteza e insegurança associadas ao processo doloroso ou transitório. É possível, inclusive, contar a história do ponto de vista de outra pessoa e revelar como diferentes perspectivas percebem, decidem, agem e obtêm resultados diferentes de nós.
Segundo Luiz Cabrera, contar corretamente a história de vida é um processo de dotação de sentido, que conecta experiências e sentimentos com um olhar ao mesmo tempo retrospectivo e prospectivo que permite a localização de eventos em uma lógica [e emoção!] que une passado e futuro através do presente, como jamais havia acontecido.
Numa abordagem diacrônica examina-se a evolução dos eventos da vida do sujeito ao longo do tempo, observando-se a progressão, mudanças, percalços, retrocessos e desenvolvimentos. É como assistir a um filme completo em vez de apenas olhar para uma fotografia, o que permitiria tão somente entender a situação em um contexto estático, sem considerar e demarcar en passant a sua evolução temporal.
Parece o aproveitamento do sentido original da frase clássica scripta manent, verba volant – que veio a significar, em nossa época, “a escrita fica, as palavras voam” – lembra Alberto Manguel, um elogio à palavra dita em voz alta, que tem asas e pode voar, em comparação com a palavra silenciosa na página, que está parada, morta.
A história de vida é para acontecer. Aliás, é a cadência ao rever o passado e falar sobre ele, é a base para decidir no presente e assim plantar o futuro, é fazer correções de rumo com base em novas oportunidades e desafios e rotulá-los, e isso pode ser aprendido, treinado e melhorado com a ajuda de especialistas.
*Taurino Araújo(academico@taurinoaraujo.com), advogado, escritor, professor Doutor em Ciências Jurídicas e Sociais, lifementoring consultant, Sócio Efetivo do Trissecular Instituto dos Advogados da Bahia – IAB-BA e da Associação Bahiana de Imprensa (ABI).










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