O Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz abriu espaço para debates políticos no dia 22 de setembro de 2024, com foco na situação atual da democracia brasileira. O historiador francês Olivier Compagnon, professor da Universidade Sorbonne Nouvelle, mediou um debate com o documentarista Ivan Cordeiro e a produtora Sara Silveira. O tema central da discussão foi a realidade do Brasil dois anos após o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência.
Compagnon abriu o debate abordando a resistência e a decepção em relação ao governo de Lula, apontando para a incapacidade de reduzir as desigualdades e melhorar a educação no país. Em resposta, Ivan Cordeiro, que exibe o curta-metragem “A Visita” no festival, argumentou que a democracia brasileira se fortaleceu com o retorno de Lula ao poder, mas ressaltou as dificuldades de reparar os danos causados pelos quatro anos do governo Bolsonaro. Cordeiro observou que a recuperação plena do país enfrenta limitações impostas pelo sistema financeiro internacional, controlado por uma oligarquia global.
Cordeiro destacou, no entanto, que parte da esquerda brasileira permanece desatualizada em relação ao cenário global. Segundo ele, setores da ultraesquerda ainda operam sob concepções que não condizem com a realidade atual, como a visão ultrapassada da Rússia como um país comunista. O documentarista afirmou que a esquerda precisa se alinhar com o contexto mundial e reconhecer que o comunismo, como ideologia de Estado, foi substituído por ditaduras capitalistas que utilizam o discurso comunista para seus próprios interesses.
O debate também abordou a crise na Venezuela, com Cordeiro destacando a complexidade do cenário, onde ditaduras tanto de direita quanto de esquerda contribuem para o agravamento da situação. O documentarista apontou a dificuldade de Lula em se posicionar de forma clara sobre o regime venezuelano, devido à pressão internacional, especialmente dos Estados Unidos, que impõem sanções ao país.
Sara Silveira, produtora do filme “Cidade; Campo”, também participou do debate e reforçou as dificuldades enfrentadas pelo Brasil após o governo Bolsonaro, especialmente no campo cultural e social. Ela ressaltou que o atual governo de Lula enfrenta o desafio de reconstruir a infraestrutura cultural do país, que foi desmantelada nos últimos anos. Silveira destacou o potencial criativo do Brasil, mas alertou que é necessário um esforço coletivo para colocar o país no caminho do desenvolvimento.
A produtora também comentou sobre a polarização política e o impacto das fake news na sociedade brasileira. Segundo Silveira, a disseminação de desinformação tem intensificado o ódio e a divisão no país, e é essencial combater essa indústria de notícias falsas para promover um ambiente mais humano e justo. Ela ainda abordou a corrupção no Brasil, que considera um problema endêmico, e cobrou uma reflexão mais profunda da esquerda sobre suas falhas e desafios.
Ao encerrar sua participação, Silveira destacou a educação como o pilar fundamental para o progresso do Brasil. Ela defendeu a necessidade de investimentos na formação básica, argumentando que o desenvolvimento sustentável do país depende de uma base educacional sólida.
*Com informações da RFI.










Deixe um comentário