Bancada evangélica mantém influência no Congresso, mas enfrenta desafios políticos

Com o retorno das atividades no Legislativo, a relação do governo federal com a bancada evangélica é tema de debate entre pesquisadores. O grupo, historicamente próximo ao Executivo, apresenta novas dinâmicas e desafios políticos, incluindo a fragmentação interna e a adaptação ao atual cenário governamental.
Bancada evangélica mantém representatividade no Congresso Nacional e enfrenta desafios diante do cenário político atual.

Com a retomada das atividades legislativas, a relação entre o governo federal e a bancada evangélica está no centro do debate político. O grupo de parlamentares, historicamente alinhado a diferentes governos em questões econômicas, apresenta desafios internos e externos na atual conjuntura. Pesquisadores apontam que, apesar da influência no Congresso Nacional, a bancada enfrenta pressões e transformações, refletindo mudanças na composição da população evangélica e na dinâmica política nacional.

O pesquisador André Ítalo, autor do livro A Bancada da Bíblia: uma história de conversões políticas, destaca que a bancada evangélica, tradicionalmente conservadora em pautas sociais, tem demonstrado pragmatismo em outras áreas. Segundo ele, ao longo dos anos, a bancada manteve proximidade com diferentes governos, independentemente da ideologia predominante. Um dos fatores que motivam essa postura, segundo Ítalo, é a busca por manter benefícios fiscais, como a isenção tributária para igrejas.

O pesquisador ressalta que, em governos anteriores, a presença de pastores em cargos do primeiro escalão foi recorrente, com apoio a Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro. Entretanto, Ítalo avalia que o governo Bolsonaro representou uma mudança nesse histórico, pois foi o primeiro a estabelecer uma afinidade ideológica explícita com a bancada evangélica. Com a volta de Lula à Presidência, o grupo se distanciou do governo e assumiu postura de oposição.

A composição da bancada evangélica tem crescido em ritmo mais lento nos últimos anos, acompanhando a estabilização do crescimento da população evangélica no Brasil. Atualmente, estima-se que cerca de 90 a 100 deputados da Câmara se identifiquem como evangélicos, enquanto no Senado esse número varia entre 10 e 15 parlamentares. Esse contingente representa menos de 20% da Câmara, percentual inferior à proporção de evangélicos na população brasileira, estimada em aproximadamente 30%.

Fragmentação interna e desafios políticos

O professor Leonardo Barreto, da Universidade de Brasília (UnB), aponta que a bancada evangélica não é um grupo homogêneo. Há divergências entre seus integrantes, tanto em relação às estratégias políticas quanto à forma de atuação. Um dos exemplos citados por Barreto é a atuação da Igreja Universal do Reino de Deus, que consolidou sua presença política por meio do partido Republicanos, atualmente no comando da presidência da Câmara dos Deputados.

Segundo o especialista, a estratégia do Republicanos envolveu a ampliação de sua base política para além dos parlamentares evangélicos, incluindo lideranças de outros segmentos. O presidente da Câmara, Hugo Motta, não é evangélico, mas foi eleito com o apoio do partido. Barreto avalia que essa tática foi bem-sucedida, mas ressalta que a bancada enfrenta desafios decorrentes do crescimento e da politização de sua base eleitoral. Parte dos parlamentares busca uma postura mais moderada, enquanto a base evangélica tem se tornado mais conservadora e alinhada à direita.

Histórico e organização da bancada

O livro de André Ítalo resgata a trajetória da bancada evangélica e sua inserção na política nacional. O primeiro pastor a ser eleito deputado federal no Brasil com o apoio de sua igreja foi Levi Tavares, que exerceu mandato entre 1967 e 1971. No entanto, a estruturação da bancada evangélica ocorreu durante a Assembleia Constituinte, a partir de 1986. Naquele período, setores das igrejas evangélicas passaram a se organizar politicamente diante da percepção de que a Igreja Católica poderia exercer maior influência na redação da nova Constituição.

Com a redemocratização, a presença evangélica no Congresso Nacional cresceu, especialmente a partir da década de 1990. A Frente Parlamentar Evangélica, grupo institucionalizado que reúne 219 deputados e 26 senadores de diferentes partidos, representa essa articulação no Legislativo. Para ser formalmente criada, a frente precisa do apoio de 171 parlamentares, o que leva à inclusão de políticos não evangélicos em sua composição.

A frente parlamentar mantém uma estrutura organizacional voltada ao acompanhamento das pautas legislativas de interesse do grupo. Segundo Ítalo, há reuniões semanais de assessores para monitoramento das comissões temáticas, e os parlamentares evangélicos se reúnem às terças-feiras para discutir a agenda legislativa. Atualmente, a coordenação da frente está sob responsabilidade do deputado Silas Câmara (Republicanos-AM).

A reportagem entrou em contato com a assessoria da Frente Parlamentar Evangélica para obter posicionamento sobre sua atuação no Congresso, mas não obteve resposta.

*Com informações da Agência Brasil.


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